Bastonário dos engenheiros alerta para falta de mão de obra e pede políticas de captação
O bastonário da Ordem dos Engenheiros alertou para a falta de mão de obra necessária às grandes infraestruturas e defendeu políticas públicas de captação de trabalhadores e talento para a construção.
Em declarações à Lusa, Fernando de Almeida Santos considerou que Portugal dispõe de capacidade empresarial instalada, mas precisa de reforçar as equipas de engenharia e, sobretudo, o número de trabalhadores intermédios e especializados para executar o novo aeroporto de Lisboa, a Terceira Travessia do Tejo e os investimentos ferroviários previstos.
"Para fazermos isto tudo, precisamos de gente em Portugal. Gente operária, essencialmente", afirmou.
Segundo o responsável, a execução simultânea das grandes infraestruturas obrigará o país a adequar as políticas públicas às necessidades do setor e a captar trabalhadores no exterior.
"Isso vai ter que ser uma decisão também política do Estado de poder fomentar essa captação de mão de obra e de talento para a construção", defendeu.
O bastonário salientou que essa política será necessária para que Portugal consiga concretizar as obras nos calendários anunciados.
O sumário executivo do relatório técnico da ANA -- Aeroportos de Portugal prevê que as obras do Aeroporto Luís de Camões, no Campo de Tiro de Alcochete, comecem em meados de 2030, fiquem concluídas até ao final de 2036 e que a infraestrutura entre em funcionamento em meados de 2037, estando o Governo e a ANA a trabalhar para antecipar todos os prazos, como garantiram a tutela e a concessionária à Lusa.
O bastonário defendeu que as ligações rodoviárias e ferroviárias devem estar disponíveis quando o aeroporto abrir.
Na sua perspetiva, projetos como a Terceira Travessia do Tejo e as ligações ferroviárias de alta velocidade são necessários ao país independentemente da construção do novo aeroporto.
O relatório da ANA exclui do orçamento de 7,9 mil milhões a 8,9 mil milhões de euros as ligações ferroviárias, a rede rodoviária exterior, incluindo a Terceira Travessia do Tejo, e as redes de abastecimento necessárias ao aeroporto.
Sobre a nova travessia, o bastonário considerou tecnicamente possível que esteja concluída até 2034, mas alertou para a duração dos procedimentos administrativos, ambientais e de planeamento que antecedem a construção.
"Se nós quisermos ter uma ponte a começar a ser construída em 2030, por exemplo, temos que dar à perna para que possamos ter tudo pronto", afirmou.
Fernando de Almeida Santos sustentou que a execução física das obras é, muitas vezes, mais curta do que todo o processo técnico e administrativo anterior, defendendo a aceleração dos estudos e das decisões necessários.
Para sustentar que o principal obstáculo está na fase preparatória, o bastonário apontou a Ponte Vasco da Gama como exemplo de uma grande infraestrutura concretizada num prazo reduzido, recordando que decorreram cerca de cinco anos entre a decisão política e a inauguração.
"Por que razão, passados 20 ou 25 anos, não fomos capazes de fazer uma travessia?", questionou, acrescentando que, do ponto de vista técnico e da engenharia, a construção é possível.
Relativamente ao investimento no aeroporto, o bastonário admitiu que o valor possa aumentar, tal como a ANA ressalva no relatório.
"É natural que aumente com a questão da inflação, do custo da construção e com a falta de mão de obra", declarou.
O responsável desvalorizou, contudo, uma eventual subida do orçamento, por considerar que o investimento na infraestrutura será assumido pela concessionária e enquadrado na concessão e negociação com o Estado.
"Mais para cima ou mais para baixo, independentemente disto ter que ser feito, tem a ver com custos da concessionária que assumiu essa concessão e, portanto, só tem que adequar esses custos ao negócio. Mas o investimento do Estado português de forma direta é nulo do ponto de vista financeiro", apontou.