DNOTICIAS.PT
Fact Check Madeira

Estarão os jornalistas na Madeira a esconder factos relevantes ao público?

None

Neste início de Maio, volta a ser amplamente divulgada um texto que se assume como notícia do jornal Eco, em que é afirmado: “O que deveria ter sido um debate sobre créditos e inflação acabou em caos total. José Gomes Ferreira acusou o Banco de Portugal de esconder uma forma de ganhar dinheiro que enriquece pessoas comuns à custa dos bancos.” O texto é longo e profusamente ilustrado. Este é apenas o exemplo mais recente de um conjunto de notícias deste género.

Neste caso, como em vários anteriores, os jornalistas, em abstrato, e os do DIÁRIO, em concreto, são acusados de esconderem factos relevantes ao público, sendo questionado o que os motiva. Mas, andarão mesmo os jornalistas a proteger alguém ou a esconder factos importantes, como os reportados, aos seus públicos?

A verificação da veracidade desta afirmação implica, antes de mais, perceber a natureza dos conteúdos que lhe dão origem. Para esse efeito, foram analisados vários exemplos recentes de textos e vídeos que circulam em redes sociais e plataformas digitais, frequentemente apresentados como notícias de órgãos de comunicação social credíveis.

O que se constata é que estes conteúdos seguem um padrão bastante consistente. Em primeiro lugar, utilizam a imagem e o nome de figuras públicas reconhecidas, como políticos, jornalistas ou empresários. Em segundo lugar, recorrem à imitação gráfica de órgãos de comunicação social, como o jornal ECO ou canais televisivos, reproduzindo logótipos, tipografias e estruturas de página com elevado grau de fidelidade. Em terceiro lugar, apresentam promessas de ganhos financeiros elevados e rápidos, normalmente associadas a plataformas de investimento supostamente inovadoras, com recurso a inteligência artificial.

Alguns exemplos ajudam a ilustrar este padrão. Num dos casos mais recentes, circulou um vídeo manipulado em que o primeiro-ministro surge alegadamente a promover um sistema que permitiria “ganhar mil euros por dia”, remetendo para páginas que imitavam o grafismo do ECO e do Jornal Económico. Noutro caso, foi divulgado um anúncio com recurso a imagens alteradas de um programa televisivo, simulando uma entrevista na CNN Portugal sobre uma alegada plataforma financeira que garantiria mais de 15 mil euros por mês, com um investimento inicial reduzido.

Também em formato escrito surgem exemplos semelhantes. Circularam textos apresentados como notícias sobre a herança de figuras públicas, como um conhecido escritor (António Lobo Antunes) ou um antigo primeiro-ministro (Francisco Pinto Balsemão), nos quais se afirmava que teriam deixado aos herdeiros o acesso a plataformas de investimento com elevados retornos. Em ambos os casos, as páginas imitavam com grande fidelidade o aspecto gráfico do ECO, incluíam declarações atribuídas a entidades inexistentes, “provas” fabricadas e testemunhos fictícios, terminando com o convite a um depósito inicial.

No caso mais recente que motivou este fact check, o texto que descreve um alegado confronto televisivo inclui todos esses elementos: figuras públicas reconhecidas, diálogo dramatizado, testemunhos de utilizadores, opiniões de supostos especialistas e, no final, a apresentação de uma plataforma que permitiria obter ganhos elevados sem esforço. Trata-se, assim, de uma narrativa construída para simular uma reportagem, mas com uma estrutura típica de conteúdo promocional fraudulento.

A análise destes conteúdos permite ainda identificar outros elementos recorrentes: a existência de testemunhos não verificáveis, a apresentação de ‘provas’ fabricadas (como recibos ou capturas de ecrã), a utilização de linguagem promocional disfarçada de jornalismo e o encaminhamento para páginas externas onde é solicitado um depósito inicial, geralmente entre os 220 e os 275 euros.

Importa vincar que, nos casos analisados, não existe qualquer correspondência entre os conteúdos divulgados e as publicações reais dos órgãos de comunicação social citados. Os domínios utilizados não coincidem com os oficiais, os textos não se encontram nos arquivos dos meios referidos e, em vários casos, já foram objecto de desmentido por entidades de verificação de factos, como do Polígrafo, da Lusa e dos próprios órgãos a quem é atribuída a notícia.

Ou seja, não estamos perante notícias omitidas ou factos escondidos pelos jornalistas, mas sim perante conteúdos integralmente fabricados, com o objectivo de simular credibilidade e induzir os leitores em erro. Noticiá-los seria pactuar com falsas notícias.

A acusação de que os jornalistas “sabem das coisas e não as divulgam” resulta, assim, de uma inversão da realidade. Parte-se de conteúdos falsos, construídos para parecerem verdadeiros, e conclui-se que a sua ausência nos meios de comunicação social é sinal de ocultação, quando, na verdade, essa ausência decorre do facto de tais conteúdos não terem qualquer base factual.

A análise dos diferentes casos permite ainda perceber que estas práticas não são pontuais nem isoladas. Pelo contrário, apresentam características que apontam para uma actuação organizada, com reutilização de estruturas narrativas, adaptação a diferentes públicos e utilização de múltiplos formatos, que vão desde vídeos manipulados até textos longos que simulam reportagens completas.

No que respeita ao DIÁRIO, não foi identificado o uso sistemático da sua imagem neste tipo específico de conteúdos fraudulentos, ao contrário do que sucede com outros órgãos de comunicação social de âmbito nacional. Essa ausência pode explicar-se, em parte, pelo facto de estas campanhas procurarem maximizar o alcance, privilegiando marcas com reconhecimento mais alargado e, em muitos casos, associadas a temas económicos ou financeiros.

Tal não significa, contudo, que a imagem do DIÁRIO nunca tenha sido utilizada de forma abusiva. Em contexto regional, têm existido situações em que conteúdos falsos ou manipulados recorrem à referência ao jornal, ou ao seu estilo, com o objectivo de conferir credibilidade a informações destinadas a afectar ou descredibilizar terceiros, quer no plano pessoal, quer no âmbito da intervenção pública. Trata-se, nesses casos, de utilizações mais localizadas e dirigidas, com finalidades distintas das burlas financeiras aqui analisadas.

Em qualquer dos cenários, o princípio é o mesmo: apropriação indevida da imagem de um órgão de comunicação social para reforçar a aparência de veracidade de conteúdos que não correspondem à realidade.

Pelo exposto, não se verifica que os jornalistas estejam a esconder factos relevantes ou a proteger alguém. O que existe é a circulação de conteúdos falsos que simulam notícias e que, pela sua aparência, induzem interpretações erradas sobre o papel dos meios de comunicação social.

Assim, a afirmação é avaliada como falsa.

“Vocês sabem das coisas e não as divulgam. Andam a proteger alguém?” – Comentário ao DIÁRIO, em mensagem de WhatsAPP, sobre notícia falsa sobre Álvaro Santos Pereira