Uma geração preparada, uma economia por preparar

Crescemos com uma promessa simples: “estuda, esforça-te e terás uma vida melhor”. Durante décadas, este foi o contrato social implícito entre gerações. Hoje, para a geração mais qualificada da nossa história, essa promessa soa a um eco distante. O contrato foi quebrado.

Não se trata de falta de vontade ou de falta de patriotismo. Os jovens não querem desistir de Portugal, é o modelo económico português que parece estar a desistir deles. Sem o salto de produtividade de que o país carece, continuaremos presos a um ciclo vicioso de baixos salários, baixo investimento e oportunidades asfixiadas. O resultado está à vista de todos é uma hemorragia de talento qualificado e uma frustração crescente com um sistema que prega o mérito, mas recompensa a sobrevivência.

Portugal conseguiu um feito notável, formou uma geração que, entre os 25 e os 34 anos, já converge com a média europeia de ensino superior. Fizemos a nossa parte do investimento. No entanto, o mercado de trabalho que os acolhe ainda vive, em grande parte, no passado. Quando a salários pouco competitivos somamos à crise habitacional, o desfecho é inevitável. A autonomia financeira é adiada e o país perde o retorno de um investimento estatal que a OCDE estima em 90 mil euros por cada licenciado. Estamos a formar talento para exportação gratuita.

As medidas recentes, como o IRS Jovem ou a devolução de propinas, são bem-intencionadas, mas funcionam como pensos rápidos numa hemorragia estrutural. Enquanto a nossa economia estiver ancorada em setores de baixo valor acrescentado, a produtividade permanecerá estagnada. E sem produtividade, o crescimento salarial é uma miragem.

O maior sinal da nossa fragilidade e, simultaneamente, do nosso potencial é a coexistência de dois países distintos.

De um lado, um Portugal moderno e global com mais de cinco mil startups, salários 80% acima da média nacional e uma forte vocação exportadora. É um país que prova que temos engenheiros e criativos capazes de vencer em qualquer parte do mundo. Do outro lado, o “país real” com 1,45 milhões de empresas, onde 96% são microentidades que lutam pela sobrevivência, asfixiadas por carga fiscal, burocracia e falta de escala.

O paradoxo é cruel, um emprega menos de 1% da força de trabalho. O outro emprega quase todos os restantes. O problema não é, portanto, a falta de talento, é um ambiente de negócios que penaliza quem tenta crescer. Em Portugal, é fácil criar uma empresa, mas é extraordinariamente difícil fazê-la ganhar escala.

A solução exige coragem para reformas que vão além do ajuste marginal. Precisamos de uma aposta real na tecnologia e na digitalização. Uma medida concreta e imediata passaria por reformular o Artigo 131.º do Código do Trabalho, direcionando as horas de formação obrigatória para a capacitação digital e Inteligência Artificial. Num país em contração demográfica, a tecnologia não é uma ameaça ao emprego, mas a única forma de permitir que menos trabalhadores gerem mais valor.

O verdadeiro desafio de Portugal não é apenas continuar a formar jovens qualificados. É construir uma economia que não os obrigue a escolher entre o seu país e o seu futuro. Um país que não valoriza os seus melhores está, inevitavelmente, a hipotecar o seu próprio amanhã.

Zózimo Castro