Um não é igual a 1

Há uma coisa na política portuguesa que merece ser dita sem rodeios: o sistema formal diz uma coisa, mas a prática mediática diz outra.

No papel, na Assembleia da República, um deputado vale sempre o mesmo. Um voto é um voto. Seja do Bloco de Esquerda, do Pessoas-Animais-Natureza ou do Juntos Pelo Povo.

A democracia representativa assenta precisamente nisso: igualdade formal entre eleitos.

Mas depois entra o mundo real, e aí a coisa já não é tão limpa.

O espaço mediático em Portugal criou uma espécie de “hierarquia invisível” entre deputados. Não por lei, mas por visibilidade. Há partidos que, mesmo com pouca representação, ocupam constantemente debates, painéis e comentários televisivos. Outros, com o mesmo direito formal de intervenção, quase não existem no espaço público.

E isto tem consequências.

Primeiro, distorce a perceção do cidadão. Quem vê televisão acaba por acreditar que a política se resume a meia dúzia de protagonistas, quando na verdade o parlamento é mais plural.

Segundo, cria uma política de duas velocidades: uma política “de estúdio”, feita de opinião permanente, e uma política “silenciosa”, feita de trabalho parlamentar menos visível.

Terceiro, enfraquece a ideia de representação. Porque se todos os deputados são iguais no papel, mas uns têm megafone constante e outros quase nenhum, então o eleitor começa a duvidar do próprio sistema.

Não é preciso dramatizar nem inventar teorias. Isto não é conspiração, é lógica mediática. As televisões procuram audiência, confronto, figuras conhecidas. E com isso acabam por empurrar para a sombra quem não encaixa nesse formato.

Mas convém não esquecer o essencial: a democracia não se mede pelo tempo de antena, mede-se pelo voto. E aí, goste-se ou não, um deputado vale sempre o mesmo.

Talvez o problema não seja a lei. Talvez seja o hábito que se criou de confundir visibilidade com importância.

António Rosa Santos