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Assembleia Legislativa Madeira

Cafôfo diz que "Madeira não precisa de três Salazares, precisa de mais Democracia"

Líder parlamentar socialista aproveitou sessão comemorativa do 25 de Abril para denunciar o bloqueio sistemático das iniciativas da oposição e apresentar dados sobre o custo de vida e a pobreza na Região

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De cravo na lapela, o líder parlamentar do Partido Socialista, Paulo Cafôfo, aproveitou a sessão comemorativa do 52.º aniversário do 25 de Abril, esta manhã, na Assembleia Legislativa da Madeira, para criticar o "bloqueio sistemático" da maioria PSD/CDS às iniciativas da oposição, defendendo que uma Democracia madura "não confunde maioria com monopólio da razão".

Num discurso em que celebrou o 25 de Abril e os 50 anos da Autonomia da Madeira, Cafôfo sublinhou que a data impõe uma reflexão sobre a qualidade da Democracia regional e sobre se as instituições estão à altura da maturidade que a Autonomia exige. "A maioria existe para governar. Não existe para bloquear", referiu Paulo Cafôfo.

Para sustentar a sua posição, o deputado apresentou números da produção legislativa da actual legislatura: o PS é responsável por 51 iniciativas parlamentares — projectos de decreto legislativo regional, propostas de lei à Assembleia da República e projectos de resolução —, o que representa 44% de toda a actividade legislativa produzida pelos partidos com assento parlamentar. "Quase metade", reiterou Cafôfo, sublinhando que estes números demonstram que o PS "honra o mandato que recebeu dos madeirenses com trabalho, com propostas e com sentido de responsabilidade".

O líder parlamentar socialista criticou o facto de muitas dessas iniciativas serem chumbadas "não pelo seu conteúdo, não pelo seu mérito, não pela sua utilidade, mas apenas porque vêm do Partido Socialista", dando como exemplo recente as propostas para reduzir o ISP e o IVA sobre os combustíveis e a carga fiscal sobre o gás, discutidas esta semana no parlamento regional.

Numa das passagens mais contundentes do discurso, Cafôfo enumerou uma série de dados sobre a realidade social da Região: 67 mil pessoas em situação de sobrelotação habitacional, 53 mil em risco de pobreza, 7 mil apoiadas pelo Banco Alimentar, mais de 100 mil a viver em casas sem condições, mais de 1.400 à espera de lar e 350 internadas em situação de "altas problemáticas". A estes números acrescentou que a Madeira regista há 30 meses consecutivos a inflação mais alta do país — com uma variação média do Índice de Preços no Consumidor de 3,2% em Março de 2026 —, ao mesmo tempo que a receita fiscal do Governo Regional cresceu 9,5% nos primeiros meses do ano. "As famílias pagam mais para comer, para se deslocarem e para viver, enquanto o Governo ganha mais com esse sacrifício", observou Cafôfo.

O porta-voz socialista responsabilizou directamente quem sempre governou a Região pelos problemas estruturais que persistem na habitação, saúde, custo de vida e desigualdades, afirmando que "quem mandou sempre não pode apresentar-se agora como comentador dos problemas que deixou arrastar". E foi mais longe: "A Democracia exige responsabilidade. E a verdade exige memória".

O discurso encerrou numa nota de esperança e afirmação democrática, com Cafôfo a defender que a Autonomia "só faz sentido se melhorar a vida das pessoas" e a exigir uma Assembleia onde a maioria governe sem bloquear e onde a oposição seja ouvida. "A Madeira não precisa de um, nem de dois, nem de três Salazares. Precisa de mais Democracia. De melhor Democracia. E de uma Autonomia ao serviço das pessoas", concluiu.