Passadas as efemérides ambientais de Março – como o Dia Mundial da Árvore e, na última semana, a Hora do Planeta – e com a época de incêndios a aproximar-se, importa não perder o foco na reflorestação e na preservação dos ecossistemas.
No Funchal, o Parque Ecológico tem sido um dos principais exemplos desse esforço continuado.
CDS promove acção de reflorestação no Parque Ecológico do Funchal
O Parque Ecológico do Funchal recebeu, esta sexta-feira, uma acção de reflorestação promovida pelo CDS-PP Funchal no âmbito da iniciativa “CDS em Ação”. O evento contou com a presença de José Manuel Rodrigues, presidente do CDS-PP Madeira, Pedro Pereira, presidente da concelhia do partido no Funchal, assim como militantes e simpatizantes.
Todavia, esta atenção à floresta e aos ecossistemas não termina com um dia de voluntariado, devendo ser complementada por práticas de gestão de resíduos, essenciais para prevenir o abandono de lixo e proteger os ecossistemas.”
As Estatísticas do Ambiente, divulgadas em Janeiro pela Direcção Regional de Estatística (DREM), indicam que a produção de resíduos na Madeira tem vindo a aumentar de ano para ano.
Segundo a DREM, em 2024, a produção global de resíduos na RAM cresceu cerca de 23,8 %, com quase 387 mil toneladas geradas, abrangendo resíduos urbanos e inertes de construção e demolição. Ou seja, trata-se de uma pressão estrutural sobre o ambiente regional.
O que deve acontecer depois de plantar árvores?
A reflorestação é frequentemente vista apenas como o acto de plantar árvores, mas especialistas e organizações ambientais salientam que isso é apenas o início de um processo muito mais complexo.
Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), “plantar árvores pode não ser tão simples e fácil quanto parece e, de modo algum, é o fim do processo de restauração – o compromisso a longo prazo de todos os intervenientes para gerir e manter uma floresta é essencial para o sucesso”.
1) Planeamento e escolha adequada das espécies
Antes de uma acção de reflorestação é fundamental definir quais espécies serão plantadas e em que altura do ano a plantação será mais eficaz.
A FAO explica que “a restauração florestal inclui a restauração de espécies desejadas, estruturas ou processos num ecossistema existente, ou a reconstrução de plantas nativas em áreas degradadas”, enfatizando que não se trata apenas de colocar árvores no solo, mas de selecionar e adaptar estratégias de restauro conforme o contexto ecológico.
2) Plantação activa
Plantação de árvores é uma das acções mais comuns em programas de restauração florestal, mas, conforme apontado pela FAO, essa actividade deve ser vista como parte de um plano mais amplo: “o plantio pode ser frequentemente aplicado quando se pretende aumentar a produção de madeira ou atingir outros objetivos de gestão com um caso claro de uso”.
Ainda assim, em muitos locais, a regeneração natural protegida pode ser mais eficaz do que a simples plantação de mudas.
3) Monitorização e manutenção pós‑plantação
Após o plantio, as árvores recém-introduzidas precisam de acompanhamento contínuo.
A FAO apresenta um quadro de acções que inclui a monitorização da sobrevivência das mudas, o controle mecânico de ervas daninhas e outras práticas de gestão ao longo dos primeiros anos após a plantação.
Por exemplo, o guia refere que nas primeiras semanas devem ser verificadas “a qualidade da plantação e ajustados os plantios mal feitos” e que posteriormente há necessidade de “controlar ervas daninhas e monitorizar taxas de crescimento e sobrevivência”.
- Primeiras 1–2 semanas: verificar qualidade das mudas e corrigir plantios mal feitos
- 3–6 meses: controlar ervas daninhas, monitorizar sobrevivência e fertilizar se necessário
- Temporada seca: cortar prevenção de incêndio, manter zonas de protecção
- 6–12 meses: replantar áreas com mortalidade elevada Anos seguintes: controlar invasoras e realizar intervenções silviculturais necessárias
Esta necessidade de acompanhamento contínuo já foi destacada em experiências práticas: em plantações de pinhais litorais em Portugal, autoridades florestais constataram que grandes taxas de mortalidade de mudas podem ocorrer sem um acompanhamento adequado, com taxas de mortalidade de cerca de 70 a 80% em anos de seca, exigindo retanques (replantio) para compensar as perdas.
4) Regeneração Natural Assistida
Além da plantação manual de árvores, existe o conceito de regeneração natural assistida, que procura remover distúrbios humanos e facilitar o crescimento natural das plantas que já existem no solo ou que emergem espontaneamente.
Segundo uma publicação técnica de organizações ambientais, “a regeneração natural pode ser acelerada ao remover distúrbios ambientais, como fogo ou supressão da vegetação, de modo a facilitar e acelerar esse processo de regeneração”.
5) Avaliação ecológica a longo prazo
A análise do sucesso de uma acção de reflorestação não se faz apenas no curto prazo. Conforme destaca literatura científica, “a restauração de florestas está ligada à biodiversidade e aos serviços ecossistémicos, sendo necessário compreender a composição e funcionamento da biodiversidade para conseguir uma restauração estável”.
É esta avaliação contínua que permite perceber se a floresta regenerou de forma funcional ou se é necessária intervenção adicional para manter os objectivos ecológicos.
Impacto e preocupações
Estas etapas formam parte de um conjunto de práticas recomendadas por organizações ambientais e técnicos florestais para que projectos de reflorestação tenham um impacto duradouro na recuperação da natureza e não fiquem apenas como acções simbólicas.
A relevância destas práticas torna-se ainda mais evidente na Madeira, onde a Floresta Laurissilva, considerada um “fóssil vivo” da vegetação subtropical e classificada como Património Mundial Natural da UNESCO desde 1999, ocupa cerca de 20 % da ilha e alberga numerosas espécies endémicas.
A maior parte da Laurissilva ter sobrevivido aos incêndios de 2024, que consumiram mais de 5 mil hectares de vegetação na ilha. Ainda assim, especialistas alertam que mesmo pequenos incêndios podem ter impactos duradouros, com algumas áreas a demorarem até 180 anos a regenerar naturalmente.
A preservação da Laurissilva e de outros ecossistemas madeirenses depende, assim, de um compromisso contínuo, que combine reflorestação, gestão de resíduos e monitorização científica — mostrando que proteger a natureza exige mais do que plantar árvores num único dia.