Dia Mundial da Morte com Jesus Ressuscitado

Recebi uma reação a um meu artigo: “mas você parece ter vivido noutros mundos”. De facto, vivo a vida no mundo material e a vida de batizado no Espírito, ressuscitado em semente. Alguns amigos dizem que vou chegar aos 100 anos. Se Deus quiser, aceito. O horizonte de mais dois anos oferece uma oportunidade de os viver a fazer algum bem a mim e a quem estou entregue em missão como fez Jesus até à morte e ressurreição. Ele preparou-se para a sua morte de forma inaudita: convidando os amigos para um banquete de entrega de vida. Quem o imaginaria, hoje, mesmo nos círculos cristãos. Não era banquete de funeral de algumas culturas. E ainda por cima lhes disse: «Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco, antes de padecer (Lc.22, 15). Será descabido um convite destes para os jovens e adultos que pedem, hoje, o batismo, aos milhares pela Europa e América? Em Jesus, morrer foi um desejo de testamento de Aliança e entrega de legado espiritual.

Sexta-Feira Santa poderia ser declarada “o dia mundial da morte”. Do morrer e entrega de todos. Todos morremos, como todos nascemos. Não só os idosos. A vida de cada um é para fazer o bem mesmo em idade avançada. Porquê medo de morrer? Em Jesus, aprendemos a fazer o bem e a falar da própria morte sem medo como alguns santos (S. Martinho) e a chamá-la irmã (S. Francisco) até a entregar. Será perigoso falar da própria morte? Experimente e os amigos reagem: “não diga isso”!

Envelhecer, com ou sem doenças, aproxima desse instante; não do “nadismo”, (do nada), de beco sem saída ou do absurdo da vida dalguns pensadores, mas da morte-esperança e passagem para além do tempo, para a vida espiritual sem limites materiais. Organizam-se encontros sobre pré-luto e luto dos familiares doentes graves (cf. Novos horizontes da Viuvez, 1988, do autor); e será adequado falar da morte aos menos idosos? Porquê tabu? Saímos da Semana Santa para o tempo pascal de batizados, contemplámos a paixão e morte de Cristo que não era idoso nem era jovem; e Ele falou claramente com os apóstolos da sua morte próxima e continuou a fazer bem, a curar e perdoar. No Getsémani orou: «Pai, se queres, afasta de mim este cálice! No entanto, não se faça a minha, mas a tua vontade» (Lc 22,42). Ali, disse a Pedro: «Mete a espada na bainha! O cálice que o Pai me deu, não o hei de beber?» (Jo 18,11). Jesus ensinou a fazer a entrega do seu corpo e sangue, na Eucaristia, na véspera de morrer. Na Cruz, com as sete palavras foi dom, perdão e orou ao Pai: «Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito» (Lc 23,46). Por fim, selou o seu legado. Tudo consumado, pago, vencido, salvo. Esta salvação foi-nos oferecida, a ressurreição do “renascer de novo” no nosso batismo no Espírito -“espírito-sopro” - que supera o sopro criador na geração.

Será que os idosos ainda podem aprender a viver com mais sabedoria e sentido a sua velhice e a sua fase pré-morte? Sim, mas deixo a resposta a cada um. Ainda perdura o chavão aplicado a todos os idosos, batizados (no Espírito ou no desejo) de que a sua sabedoria e espiritualidade é relação de fragilidades, quase insignificante com o Senhor. Será? Não podemos avaliar, nem generalizar. Só Deus penetra nos corações. As experiências de vida ajudam a aprender sempre e a viver com mais coerência, serenidade e o sentido da fé. O sensato pensará: muita coisa corre bem, algumas nem tanto, e outras mal, mas poderia ser pior, é bom dar graças. Nesta idade, como muitos experimentam, mesmo as personalidades de tipo A, mais inclinadas para realizações que relações e empatia, já não teimam em controlar tudo. Vivem atitudes de deixa ir, calma, dando mais espaço à vontade de Deus. Guiam-se menos por veleidades e tolices e mais com paz, convicção e esperança: não sentem tanto que se deve mudar o mundo com espectativas e ilusões de momento, para não dizer disparates e absurdos. E dão mais valor cristão à pacificação nas relações fraternas profundas. Não é fuga mundi, mas dar mais do que está a faltar ao mundo: as prioridades evangélicas e a oração; contam mais com a parte de Deus, a pessoa, a palavra e o exemplo de Jesus Cristo que desejou a morte, morreu, não ficou morto, mas ressuscitou, deixou o sepulcro vazio e mudou e muda a História. Votos de Boas Festas de Passagem para Ressurreição.

Aires Gameiro