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Crónicas

A ilusão das ligações modernas

Há conversas inteiras feitas de frases pela metade, em que o ar se sobrepõe à essência e à verdade

A comunicação é hoje em dia fator decisivo, da forma como vivemos e como nos construímos. Em nós e nos outros. É uma evidência ou se quiserem uma constatação de um facto que encontramo-nos ligados como nunca antes. Chegamos ao outro lado do mundo à distância de um click e passamos parte do nosso dia em longas conversas por mensagem, sejam pessoais ou nos diversos chats de grupos nas diferentes redes sociais. Há dias em que falamos com mais pessoas antes do almoço do que antigamente numa semana inteira. Mensagens curtas, reações rápidas, fotografias e vídeos enviados sem contexto, comentários quase automáticos alguns deles tirados do ChatGPT e respostas com emojis que substituem frases inteiras. Tudo acontece a uma velocidade estonteante, os telefones não param e prevalece a sensação de proximidade imediata, como se a presença pudesse caber inteira num ecrã. Como se a vida se passasse por ali. E no entanto, raramente essa sucessão de contactos significa uma companhia verdadeira. São as amizades com filtros, camufladas entre a falsa sensação de que se conhece, de que se faz parte.

Criou-se uma espécie de ilusão de que estamos permanentemente ligados e que em certa medida nos transmite algum tipo de conforto. Há sempre alguém disponível do outro lado, alguém que responde, alguém que vê, alguém que reage ou que tem uma opinião para dar. Mas essa ligação, muitas vezes não chega a transformar-se em encontro, nem em pertença, nem sequer em silêncio partilhado, parece que há cada vez mais quem se satisfaça com esse relacionamento que se esconde entre as palavras e que foge da presença física. Fala-se todos os dias com pessoas que na verdade, nunca chegam verdadeiramente a estar connosco. Talvez porque neste tempo que é o nosso, se fale muito e se diga tão pouco. Há conversas inteiras feitas de frases pela metade, em que o ar se sobrepõe à essência e à verdade. É a facilidade do contacto que não traz profundidade, apenas continuidade como se de uma máquina de oxigénio se tratasse. Uma continuidade leve, sem exigência, sem compromisso, quase sem memória e muito pouca história. Como se uma relação pudesse sobreviver apenas da repetição de pequenos sinais.

Também nas amizades se instalou uma nova delicadeza, um politicamente correto por vezes próximo da distância. Conhece-se muita gente, cruza-se com mais ainda, mantém-se um numero considerável de nomes acessíveis a qualquer hora mas poucos sabem realmente como estamos quando deixamos de escrever frases rápidas e respostas convenientes. Muito poucos, atrevo-me a dizer. Há amizades que vivem inteiramente na superfície, existem porque continuam ativas e não porque resistam ao tempo ou à ausência. Talvez seja por isso que também se tornou mais difícil assumir seja o que for. Assumir os afetos, intenções, escolhas ou a vontade de permanecer. Tudo parece provisório, reversível e dependente de uma liberdade que não pode ser comprometida. Como se dizer o que se sente implicasse renunciar a uma possibilidade futura. As redes sociais acentuaram esta lógica das aparências. Nunca foi tão fácil acompanhar a vida de alguém sem realmente participar nela. Sabemos onde jantam, para onde viajaram, com quem se dão, o que decidiram mostrar mas esse conhecimento visual raramente corresponde a intimidade.

Há uma solidão discreta que nasce exatamente aí. No excesso de contacto sem profundidade. Pessoas rodeadas de notificações e ao mesmo tempo sem saber a quem telefonar num final de tarde difícil. Talvez o problema não esteja na tecnologia mas na forma como aprendemos a usá-la para evitar o que exige mais de nós. Presença, disponibilidade, tempo e empatia.

Porque estar ligado não significa o mesmo que estar próximo e falar todos os dias não significa necessariamente deixar de estar sozinho.

Frases Soltas:

A Assembleia da República rejeitou uma proposta que garantia o subsídio de doença a 100% para doentes com cancro. Não perceberam claramente que o cancro é muito mais do que uma doença. Quem o “descobre” fica com as suas prioridades trocadas, mudam-se os pensamentos e deixa-se de ter a capacidade de pensar em mais nada para além da sobrevivência. Infelizmente em Portugal dá-se mais importante a outras coisas do que em apoiar realmente quem fica sem chão. Deviam seguir o exemplo de outros países, não só em relação a este martírio mas a outro tipo de incapacidades.

A Ucrânia conseguiu, no último mês, pela primeira vez nos últimos largos tempos, recuperar algum do terreno perdido à Rússia. Com a desativação do sistema Starlink os russos perderam parte dos seus “olhos” e a descoordenação no campo de batalha começa a dar os seus frutos. Veremos se poderá ser um “game changer”.