Um homem pequenino
Há quem acredite que os ralis se ganham ao volante; outros, mais prudentes, preferem tentar ganhá-los ao colo do burocrata de plantão, resguardados pelo calor humano da secretaria.
Em tempos de sensibilidades exacerbadas, basta invocar o espectro do tabaco, da saúde pública e das criancinhas impressionáveis para transformar um resultado desportivo numa cruzada moral de folha timbrada. Não deixa de ser comovente ver tanta indignação nascer precisamente quando o cronómetro insiste em colocar sempre os mesmos no topo da classificação.
A inveja, essa velha senhora, raramente se apresenta com o seu verdadeiro nome; prefere disfarçar-se de zelo regulatório, de defesa do interesse público, de preocupação com o futuro da humanidade. O que poderia ser apenas a constatação humilde de que há quem vá mais depressa, tornase subitamente um exercício de interpretação jurídica sobre cores, tipografias e vogais trocadas. É curioso, porém, como a consciência ética de certos paladinos da pureza publicitária desperta sempre tarde e a más horas.
Quando no passado lhes acenaram, ainda que vagamente, com a hipótese de um autocolante de tabaqueira na porta, a objeção moral não parecia ser tão inflamável quanto agora se proclama. A falta de patrocínio converte-se, após sucessivas portas fechadas, numa espécie de epifania higienista: aquilo que em tempos desejou ardentemente passa a ser denunciado como chaga civilizacional.
No fundo, há algo de profundamente honesto, quase freudiano, na estratégia de ir “à secretaria” resolver aquilo que o talento ao volante não alcança. É a confissão tácita de inferioridade: se não consigo ser mais rápido na estrada, talvez consiga ser mais claro no preâmbulo, mais minucioso na citação de artigos, mais criativo na construção de indignações. Onde antes se discutiam décimas de segundo, discutem-se agora parágrafos, alíneas e considerandos, numa espécie de campeonato paralelo em que vence quem tiver a escrita mais trabalhada e o ressentimento mais persistente.
A ironia maior reside nessa mesquinhês que se disfarça de grande causa. Não se trata de repensar o modelo desportivo, nem de defender genuinamente a saúde dos espectadores; trata-se, isso sim, de garantir que, se não posso ganhar, ao menos ninguém há de saborear a vitória em paz. A classificação suspensa torna-se então um troféu simbólico: não é o triunfo na estrada, mas é o consolo amargo de ter arrastado todos para o pântano da suspeita.
Talvez um dia se aceite que a verdadeira grandeza está em reconhecer que os outros, por vezes, são simplesmente melhores – mais rápidos, mais consistentes, mais desejados pelas marcas. Até lá, continuará a haver quem confunda justiça com vingança tardia, moral com despeito, e fair play com a habilidade de transformar a luxúria por um patrocinador nunca obtido numa súbita cruzada puritana. Nos anais do desporto, esses nomes raramente ficam pelo que ganharam; ficam, isso sim, pela elegância com que conseguiram perder.
Pedro Bota