Julgamento à revelia de extremista islâmico pelo genocídio yazidi começa em França
O julgamento à revelia do extremista francês Sabri Essid, suspeito de participar no genocídio da minoria religiosa yazidi na Síria, começou hoje, em Paris, num processo inédito para o sistema judicial francês.
Essid, nascido em 1984 em Toulouse (sul) e presumível morto, vai ser julgado até sexta-feira por genocídio, crimes contra a humanidade e cumplicidade entre 2014 e 2016, pelo Tribunal de Justiça de Paris.
Três mulheres yazidis são partes civis no processo e duas vão testemunhar.
Sabri Essid juntou-se às fileiras do grupo extremista Estado Islâmico (EI) na Síria em 2014 e terá sido morto em 2018 em circunstâncias desconhecidas.
O extremista islâmico era próximo dos irmãos Clain, que reivindicaram a autoria dos atentados de 13 de novembro de 2015, e de Mohamed Merah, autor do massacre de 2012 no sudoeste de França.
Na ausência de provas formais da morte, Essid é considerado foragido e, por isso, está a ser julgado à revelia, por um tribunal composto por três juízes e sem júri.
Para Clémence Bectarte, advogada que representa as três partes civis e os seus oito filhos, o julgamento deverá permitir "uma interpretação diferente dos crimes cometidos pelo Estado Islâmico", que é geralmente julgado por crimes de terrorismo.
"É essencial que [o julgamento] destaque as atrocidades particularmente graves cometidas contra as populações civis e, em particular, a política genocida implementada contra a população yazidi", afirmou.
Esta minoria de língua curda, seguidores de uma religião pré-islâmica, presente no norte do Iraque e da Síria, tem sido sujeita a violações, raptos, escravatura e outros tratamentos desumanos em zonas controladas pelo EI.
Em 03 de agosto de 2014, combatentes do EI lançaram um ataque coordenado contra a região de Sinjar, no Iraque, onde vivem 400 mil membros desta minoria, que foram mortos, capturados ou deslocados. Os extremistas também deportaram mulheres e crianças para a Síria.
De acordo com os juízes de instrução encarregados da investigação, Sabri Essid, conhecido na Síria como Abu Dojanah al-Faransi, "associou-se integralmente a esta política de escravização do Estado Islâmico" para esta comunidade, "implementando-a pessoalmente".
O acusado comprou várias cativas yazidi nos mercados, submeteu-as a "escravatura sexual" cometendo "violações repetidas e regulares", além de "maus tratos", privando-as de comida e água, sublinharam os magistrados.
O extremista francês - condenado em França em 2009 a cinco anos de prisão, um dos quais com pena suspensa, por conspiração terrorista - era filho de um companheiro da mãe de Mohamed Merah.
Sabri Essid viajou para a região da fronteira entre o Iraque e a Síria no início de 2014, para onde foi também a mulher, os três filhos e o enteado. Essid aparece num vídeo de propaganda do EI, divulgado em 10 de março de 2015, no qual incita o enteado, então com 12 anos, a executar um refém palestiniano com um tiro na cabeça.
A mulher de Essid, presa desde que regressou a França, deverá testemunhar no julgamento.
Este é o primeiro julgamento deste tipo em França. Entretanto, várias condenações de membros do EI pelo genocídio yazidi foram proferidas na Europa nos últimos anos, a primeira na Alemanha em 2021, seguida no ano passado por condenações na Suécia e na Bélgica.
Um outro julgamento relacionado com este genocídio está previsto realizar-se em Paris em 2027: o de Abdelnasser Benyoucef, emir do EI também presumível morto, e da ex-companheira Sonia Mejri, que regressou a França.
No total, a Procuradoria Nacional Antiterrorista (PNAT) francesa, com jurisdição em crimes contra a humanidade, tem 11 processos relacionados com este caso, disse o responsável do organismo, Olivier Christen, à rádio francesa RFI.