UE sem acordo sobre novas sanções à Rússia
Os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE não chegaram hoje a acordo sobre o 20.º pacote de sanções à Rússia, anunciou a chefe da diplomacia dos 27, que reconheceu tratar-se de "um revés".
"Infelizmente, não chegámos a acordo sobre o 20.º pacote de sanções. É um revés e uma mensagem que não queríamos enviar hoje, mas o trabalho continua", afirmou Kaja Kallas em conferência de imprensa no final de uma reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia (UE), em Bruxelas.
O pacote de sanções em questão tinha sido preparado para ser aprovado na véspera do quarto aniversário da guerra na Ucrânia, mas foi bloqueado pela Hungria, que acusa Kiev de estar a impedir entregas de petróleo russo ao país através do oleoduto Druzhba.
Kaja Kallas disse "lamentar realmente" que os 27 não tenham chegado a acordo, tendo em conta que na terça-feira "se assinala o triste aniversário do início da guerra e é necessário enviar sinais fortes à Ucrânia" de que a UE continua a apoiar o país e a "pressionar cada vez mais a Rússia".
No entanto, a Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança sublinhou que esta não é a primeira vez que a Hungria bloqueia decisões de apoio à Ucrânia e lembrou que, no passado, apesar desse veto, a UE acabou por conseguir sempre "encontrar soluções em conjunto".
"Por isso, estamos a fazer um trabalho de sensibilização a diferentes níveis junto dos nossos colegas húngaros e eslovacos para avançarmos com este pacote. É claro que não é fácil, nunca é fácil, mas o trabalho continua", referiu.
Questionada se lhe parece que a Hungria está a impor este bloqueio por motivos eleitoralistas -- há eleições legislativas em abril e o partido do primeiro-ministro Viktor Orbán surge em segundo lugar nas sondagens --, Kaja Kallas disse não perceber como é que um bloqueio nesta matéria poderia dar mais votos.
"Tenho muita dificuldade em perceber, tendo em conta a história da Hungria, como é que o povo húngaro poderia ser favorável a que não se ajudasse o povo da Ucrânia. É difícil acreditar que isso poderia trazer dividendos eleitorais, ainda que, claro, não conheça o ambiente político da Hungria", referiu.
Kallas rejeitou ainda a ideia de que a Ucrânia esteja por detrás dos danos no oleoduto de Druzhba, ao contrário do que invoca a Hungria, frisando que foi a Rússia que bombardeou o oleoduto.
"E não apenas o oleoduto, mas cerca de 80% da infraestrutura energética da Ucrânia e não posso culpar os ucranianos por quererem reparar e darem prioridades às infraestruturas de que o seu povo precisa, [a enfrentar] -25.º C, do que a este oleoduto", afirmou.
Além de se opor ao pacote de sanções, a Hungria está também a bloquear o empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia, igualmente devido à interrupção de entregas de petróleo através do oleoduto de Druzhba.
Questionada se a UE tem algum plano B caso a Hungria não levante o seu veto a este empréstimo, Kallas disse que este já era o plano B, recordando que, em dezembro, o Conselho Europeu tinha inicialmente querido financiar o empréstimo recorrendo a bens russos congelados, mas, perante a oposição de Estados-membros, tinha antes adotado a fórmula atual.
"Mas, se este plano não funcionar, podemos sempre voltar à solução dos bens russos congelados, e poderíamos fazê-lo mais rápido. É claro que precisamos de ser rápidos nesta matéria, porque a Ucrânia precisa da nossa ajuda", referiu.
Nesta conferência de imprensa, Kaja Kallas indicou ainda que, na reunião de hoje, 26 dos 27 Estados-membros concordaram em impor sanções contra "colonos violentos" na Cisjordânia, lamentando que a vontade maioritária não tenha podido ser aplicada.
Portugal é favorável ao reforço das sanções, conforme indicou aos jornalistas o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel.
"É claramente um problema do nosso processo de decisão, porque, apesar de haver uma maioria, quando um bloqueia, não é a vontade da maioria que impera e ficamos a fazer o que apenas um único país deseja", lamentou ainda Kallas.