Existe um problema de segurança com os turistas na Madeira?
A notícia de uma agressão com uma pedra a um turista, na zona do Mercado dos Lavradores, no Funchal, divulgada neste sábado, pelo DIÁRIO, suscitou um conjunto de comentários no dnoticias.pt e nas respectivas plataformas digitais. Enquanto alguns leitores olharam para a situação como normal e dentro do que sempre tem acontecido, outros viram no acontecimento a prova de que existe um problema com a segurança dos turistas na Região.
Alguns afirmaram que são os madeirenses quem destrói “o pouco que têm”, enquanto outros manifestam menos tolerância para com comportamentos normais a qualquer turista, como pretender fotografar algo, ainda que isso cause algum incómodo.
Um leitor, que não se quis identificar publicamente, afirmou no dnoticias.pt: “Acontece tanto que já nem se pode considerar uma notícia, mas sim uma rotina do dia-a-dia”.
Mas, haverá mesmo um problema com a segurança dos turistas? Existem tantos casos que possam ser considerados rotina?
A verificação da veracidade da ideia de que existe um problema de segurança com os turistas assentou em três níveis de análise. Primeiro na pesquisa de notícias publicadas na imprensa regional nos últimos anos, depois na consulta de estudos oficiais de satisfação turística e, por fim, na análise da variável “segurança do destino” nesses mesmos relatórios.
Comecemos pelas notícias. É possível encontrar, ao longo dos últimos anos, relatos pontuais de agressões ou tentativas de assalto envolvendo turistas, sobretudo no Funchal. Esses episódios existem e alguns assumem gravidade suficiente para justificar destaque mediático. Contudo, a sua ocorrência é espaçada no tempo e não foi identificada evidência de crescimento exponencial ou padrão sistemático que permita classificá-los como rotina diária. Não conseguimos localizar quaisquer dados oficiais que apontem para um aumento sustentado de agressões especificamente dirigidas a turistas.
Passemos aos estudos de satisfação. Nos relatórios do Observatório do Turismo da Universidade da Madeira, disponíveis on-line, que avaliam a experiência dos visitantes em eventos como a Festa da Flor, Festa do Vinho e Natal/Fim de Ano, a variável “Segurança do destino” surge de forma consistente como um dos factores mais valorizados, com classificações superiores a 6 numa escala de 1 a 7. Em alguns casos, a segurança apresenta-se entre os atributos mais fortes do destino, a par do clima, hospitalidade e beleza natural. Nas respostas abertas desses inquéritos não surgem referências a medo, criminalidade ou agressões como problema relevante da experiência turística.
Em estudos mais amplos de avaliação da satisfação do turista divulgados nos últimos anos, a segurança face a actos criminosos e furtos surge igualmente como indicador altamente valorizado. Se existisse um problema estrutural de insegurança, seria de esperar que tal se reflectisse na percepção média dos visitantes / turistas ou nas conclusões dos relatórios, o que não se verifica.
Assim, torna-se obrigatório distinguir entre percepção amplificada e realidade estatística. Um caso grave, amplamente comentado nas redes sociais, pode criar a sensação de repetição e frequência. No entanto, num destino que recebe centenas de milhares de visitantes por ano, como a Madeira, que recebeu 2,4 milhões de turistas em 2025, a existência de ocorrências isoladas não equivale, por si só, a um problema estrutural. Para que tal classificação fosse apropriada, seria necessário demonstrar regularidade, tendência crescente e impacto mensurável na experiência turística, elementos que não foram encontrados na análise que efectuámos.
Isto não significa que os episódios ocorridos devam ser desvalorizados ou ignorados. Cada caso merecerá investigação e resposta adequada das autoridades. Porém, a afirmação de que existe uma rotina de agressões a turistas ou um problema generalizado de segurança não encontra sustentação factual nos dados disponíveis.
Conclui-se, pois, que existem casos pontuais, como em qualquer destino turístico, mas não há evidência que permita afirmar que a Madeira enfrenta um problema estrutural de segurança para turistas. A ideia de que tais ocorrências são “rotina do dia-a-dia” não é corroborada pela análise das notícias, nem pelos estudos oficiais de satisfação dos visitantes disponíveis publicamente.
Pelo exposto, avaliamos a afirmação do leitor como falsa.