A exigência começa em cada um de nós
Durante mais de 20 anos, Cristiano Ronaldo habituou-nos a querer sempre mais. Um golo não chegava. Depois de uma vitória, já pensava na seguinte. E quando as coisas corriam mal, pensava o que podia ter feito melhor. Foi assim que um rapaz da Madeira nos ensinou o valor de nunca nos darmos por satisfeitos.
Mas a exigência não é só para quem entra num campo de futebol. Nem pode aparecer apenas quando estamos no sofá a ver os outros a jogar.
Basta olhar para as notícias desta semana. Falámos de equipamentos de radiologia ainda sem utilização e de falhas nos bombeiros por resolver. São assuntos que preocupam. Não por falta de dedicação de quem trabalha nestes serviços, mas pela importância que têm para as pessoas. Quando se trata de saúde e segurança, todos queremos respostas a tempo.
Mas, na mesma semana, tivemos boas notícias. Os dados sobre o consumo de álcool e drogas entre os jovens madeirenses mostraram resultados que merecem ser valorizados. É sinal de que a prevenção pode dar frutos. E há tantas outras conquistas que passam despercebidas no meio das preocupações diárias.
Eis, por isso, o contraste: somos capazes de exigir sempre mais a quem nos representa lá fora, mas nem sempre temos a mesma exigência quando olhamos para aquilo que fazemos cá dentro. E, perante o que falta fazer, corremos o risco de nos habituarmos a esperar.
E foi a olhar para estas notícias que dei por mim a pensar que não precisamos de escolher entre dizer que está tudo bem ou que está tudo mal.
Ser exigente não é reclamar por tudo e por nada. É querer que as coisas funcionem melhor, sem deixar de reconhecer quem faz bem. É perceber que comprar um equipamento não chega se não estiver ao serviço das pessoas. É reconhecer o esforço de quem previne problemas. É não deixar que uma dificuldade de hoje passe a ser vista como normal amanhã.
E esta conversa também é connosco. Todos gostamos de ser bem atendidos, de encontrar uma escola a funcionar ou um serviço de saúde que responda a tempo e horas. Mas quantas vezes exigimos dos outros aquilo que não fazemos? Chegamos a horas? Cumprimos a palavra? Tratamos com respeito quem está do outro lado do balcão?
É que na Madeira, aprendemos cedo o que custa trabalhar. Sabem-no os que saem de casa de madrugada, os que vivem do mar ou da agricultura, os que cuidam de familiares e os que, sem fazer grande alarido, ajudam o próximo. Essa força não aparece num museu, mas merece ser lembrada. E talvez seja essa a mensagem de uma semana tão diferente nas primeiras páginas do nosso jornal. Não desistir de pedir melhor, mas não esquecer de agradecer quando se faz bem. Ter orgulho na nossa terra sem fechar os olhos ao que precisa de mudar. E perceber que a exigência começa naquilo que cada um de nós faz.
Ronaldo mostrou ao Mundo até onde pode chegar um madeirense que nunca deixou de querer mais. Precisamos de levar essa vontade para a vida de todos os dias. No trabalho, em casa, na forma como tratamos os outros e naquilo que fazemos pela nossa terra.