A Luta pela habitação não se cala!
A habitação tornou-se uma das maiores preocupações de quem vive e trabalha em Portugal. Entre rendas incomportáveis, casas à venda por preços inacessíveis e salários que não acompanham o custo de vida, encontrar um lugar digno para viver deixou de ser uma tarefa simples para se transformar, em muitos casos, numa verdadeira batalha. É neste contexto que as acampadas das últimas semanas assumem particular importância.
Mais do que manifestações de descontentamento, estas iniciativas representam uma forma de resistência e de afirmação coletiva. Quando pessoas ocupam o espaço público para denunciar a dificuldade em aceder a uma habitação, estão a tornar visível um problema que demasiadas vezes é tratado como uma questão individual. Não é. A crise da habitação é uma questão social e política que exige respostas concretas.
Mas há algo que não podemos ignorar. As cargas policiais verificadas nas acampadas de Lisboa e do Porto, com bastonadas, feridos e detenções, merecem a mais firme condenação. É profundamente preocupante que pessoas que protestam de forma absolutamente pacífica, contra a impossibilidade de aceder a uma casa digna, sejam confrontadas com tamanha violência. O direito à manifestação é uma conquista fundamental da democracia e não pode ser silenciado pela força. Toda a solidariedade para com os manifestantes, com quem resiste e não desiste de exigir condições de vida dignas. Perante a injustiça, a resposta não pode ser a repressão, mas o diálogo e a responsabilidade política. As acampadas mostram que há quem não se conforme com a ideia de que viver numa casa digna é um privilégio reservado a quem tem dinheiro. Mostram também que a mobilização popular pode romper o silêncio, contrariar a resignação e colocar a habitação no centro do debate público. É preciso exigir mais habitação pública, rendas comportáveis, combate à especulação imobiliária e proteção de quem vive ameaçado de despejo.
Na Madeira, esta realidade assume contornos particularmente graves. A pressão turística e a insuficiência de habitação acessível empurram cada vez mais residentes para situações de precariedade. Jovens que não conseguem sair de casa dos pais, famílias que destinam uma parte excessiva do rendimento à renda e trabalhadores que, apesar de terem emprego, não encontram condições para viver na sua própria terra. Esta não pode ser a normalidade a que nos habituamos.
É por isso que a concentração pela Habitação, no Funchal, que se realiza no próximo fim de semana, merece o envolvimento de todos. Não apenas de quem enfrenta diretamente dificuldades habitacionais, mas também de quem compreende que este problema afeta a vida coletiva e o futuro da nossa Região. Participar é afirmar que a habitação é um direito e não uma mercadoria sujeita exclusivamente à lógica do lucro. É dar força a uma reivindicação que não pode continuar a ser ignorada. É mostrar que não aceitamos que viver na nossa terra se torne um privilégio. Quando nos juntamos, a nossa voz ganha força. Quando ocupamos as ruas, lembramos aos responsáveis políticos que há vidas concretas por detrás dos números e das promessas. A luta pela habitação precisa de todos nós.