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Afinal, que mundo queremos construir?

As manifestações pela habitação, em Portugal e noutros países, mostram que a sociedade chegou a um ponto de rutura com a injustiça social

V ivemos um tempo de transição, de incerteza, mas também de oportunidades. Os sinais de alerta são tantos que, em muitos países, as autoridades recomendam que as pessoas estejam preparadas para, pelo menos, 72 horas de escassez. Entre guerras, crises sociais, climáticas e económicas e devastação da Natureza para construir data centers para alimentar a IA, parece que nos vamos habituando a viver em alerta. Mas será que devemos aceitar o medo como parte da nossa vida?

As manifestações pela habitação, em Portugal e noutros países, mostram que a sociedade chegou a um ponto de rutura com a injustiça social. Mas a violência policial é inaceitável, assim como assistir a figuras políticas a proferirem declarações que incentivam ou legitimam essa violência. Quem tem voz e poder devia ser muito mais responsável e justo. Também é profundamente desonesto pegar em atos isolados de alguns manifestantes e usá-los para denegrir a imagem de milhares de pessoas que saíram à rua. Sim, os excessos devem ser responsabilizados, mas não podem servir de desculpa para desacreditar uma causa nem para silenciar a maioria. Recorde-se que o direito de manifestação está consagrado na Constituição da República Portuguesa.

Os resultados eleitorais no Brasil e em Israel mostram sociedades divididas e escolhas políticas com consequências que vão muito além das urnas, onde as políticas extremistas e antidemocráticas começam a perder força. Mas é na Sérvia que encontro uma mensagem particularmente inspiradora. Depois de meses de mobilização, os/as estudantes e os cidadãos e cidadãs que se levantaram contra a corrupção conseguiram transformar o descontentamento numa vitória eleitoral histórica. Tudo começou com uma tragédia que custou vidas humanas e com a exigência de responsabilidade. É um exemplo de que a participação cívica pode mudar o rumo de um país. Mas não basta protestar: é preciso persistir, organizar e construir alternativas.

Os direitos humanos não podem ser uma preocupação apenas quando nos convém, nem depender da nossa simpatia por quem sofre. A dignidade humana não tem fronteiras, partidos ou nacionalidade.

E depois temos a Madeira. Custa-me ver como é tão difícil unir esforços em torno da causa da habitação, com manifestações organizadas separadamente, dificultando a mobilização conjunta da sociedade civil em defesa de um direito que é de todas as pessoas. É assim tão difícil ter uma mente aberta e colocar a participação cívica acima de disputas, ideologias e concorrências?

Acredito que estamos num tempo em que precisamos de escolher de que lado queremos estar: do lado do medo ou da esperança, da manipulação ou do pensamento crítico, da divisão ou da solidariedade. Não temos de concordar em tudo, nem de aceitar tudo o que nos dizem. Temos, sim, o dever de questionar, de nos informarmos, de participar e de não virar a cara à injustiça.

Transformar o mundo pode parecer uma tarefa demasiado grande para cada pessoa. Mas começa nas escolhas que fazemos, nas palavras que dizemos, nas causas que defendemos e na coragem de não ficar em silêncio. Não podemos esperar construir uma sociedade mais justa se permitirmos que o medo, a manipulação e as divisões nos impeçam de agir coletivamente. A mudança também começa quando cada um/a de nós decide fazer a sua parte.