À espera de uma comissão
Não foram os agentes imobiliários que criaram a falta de casas. Mas ajudaram
Fala-se muito da falta de casas na Madeira. E bem. Construímos pouco, há imóveis vazios e os preços estão cada vez mais longe dos salários de quem cá vive. Mas há uma pergunta que quase ninguém faz: que responsabilidade têm os agentes imobiliários?
É um assunto que, a meu ver, não tem merecido discussão. E merece. Porque, à medida que os preços das casas foram subindo, também começaram a aparecer cada vez mais pessoas interessadas em vendê-las. Algumas com experiência, formação e conhecimento do mercado. Outras sem nada disso. Bastou perceber que havia dinheiro a ganhar.
De repente, vender casas passou a parecer uma profissão ao alcance de qualquer um. Um telemóvel, umas fotografias, uma página nas redes sociais e está feito.
O problema é que não estamos a falar de vender um carro usado. Estamos a falar, provavelmente, do bem mais importante que uma família alguma vez vai comprar.
É uma profissão que exige muito mais do que jeito para vender ou um bom jogo de palavras na descrição dos imóveis. Otípico ‘acolhedor’ para um cubículo ou o ‘transforme à sua maneira’ quando está a cair de podre.
Ser agente imobiliário exige uma infinidade de capacidades. Muito mais do que conhecer a zona ou perceber o estado da casa. É, por exemplo, ter a coragem de dizer a um proprietário que o preço que imagina não faz sentido.
E é aqui que entronca uma outra parte do caso. Quantos proprietários não terão ouvido que a sua casa vale muito mais do que aquilo que realmente vale? Quantos preços não terão sido puxados para cima apenas para conseguir mais uma angariação? E quantos anúncios, com valores completamente desajustados, não terão servido de exemplo para o vizinho pedir ainda mais pela sua?
É verdade que nem sempre dá uma boa comissão. Mas é precisamente aí que reside a diferença entre um profissional e alguém que entrou no negócio à procura de dinheiro fácil.
Depois, torna-se fácil perceber o efeito. Uma casa aparece à venda por um preço absurdo. A do lado já não pode valer menos. E assim se vai criando a ideia de que tudo vale cada vez mais. Mesmo que não valha nada. Mesmo quando ninguém sabe se aqueles imóveis foram depois vendidos pelos valores anunciados - um truque também já identificado nos estudos diários divulgados pelos portais imobiliários que pouco ou nada valem.
No meio desta história também é claro que o proprietário tem a última palavra. Mas quem se apresenta como especialista tem a obrigação de aconselhar e não de alimentar expectativas desmesuradas.
Ainda assim, peço atenção. Não quero colocar todos os profissionais no mesmo saco. Conheço o valor de quem trabalha com seriedade e sabe o que faz. Mas também não podemos fingir que a entrada de pessoas sem preparação neste mercado não levantou graves e irreparáveis problemas, porque fizeram da habitação uma corrida às comissões. Quanto mais alto fosse o preço, maior seria o ganho. E, pelo meio, parece ter-se perdido uma coisa essencial: o sentido de responsabilidade.
Não foram os agentes imobiliários que criaram a falta de casas. Mas alguns ajudaram a transformar essa falta numa oportunidade para pedir sempre mais. E isso também merece ser discutido quando falamos de especulação.
A Madeira precisa de construir mais, sim. Mas também precisa de levar mais a sério quem anda a vender as casas que já existem. Exigir preparação, conhecimento e honestidade não devia ser pedir muito. Porque, no fim de contas, aquilo que para uns é uma comissão, para outros são 40 anos de prestações ao banco. E convém não esquecer quem fica com a conta.