DNOTICIAS.PT
Fact Check Madeira

Estiveram menos de 50 pessoas na assembleia pela habitação no Funchal?

None

A habitação voltou a estar no centro das atenções, no domingo, 25 de Outubro, com a realização de uma assembleia popular no Jardim Municipal do Funchal. O encontro serviu para preparar a manifestação marcada para 14 de Novembro, que decorrerá em várias cidades do País, incluindo a capital madeirense.

Na notícia publicada nesse dia na edição on-line e hoje em papel, o DIÁRIO referiu a presença de cerca de uma centena de pessoas. Um número que motivou várias reacções na página do dnoticias.pt no Facebook, algumas das quais procurando desvalorizar a iniciativa e a participação dos cidadãos.

Entre os comentários, J. Rodrigues contestou directamente a dimensão da assistência, afirmando que “não chega a cinquenta”. A observação deu origem a uma troca de palavras com outros leitores, incluindo F. Pinto, que respondeu: “foi 100”.

Afinal, quantas pessoas estiveram na assembleia? Terá o DIÁRIO exagerado na estimativa ou foi o leitor que desvalorizou a participação?

Para verificar a afirmação, recorremos aos registos fotográficos do encontro, publicados pelo DIÁRIO e pelo JM – Jornal da Madeira, e às imagens da reportagem televisiva da RTP Madeira. Procurámos, através das diferentes perspectivas, determinar quantas pessoas estavam efectivamente presentes, evitando contar repetidamente os mesmos participantes.

A primeira dificuldade prende-se com as características das imagens. Algumas mostram apenas uma parte da assistência, enquanto outras oferecem uma perspectiva mais abrangente do anfiteatro. Há ainda pessoas parcialmente encobertas, sobretudo nas filas superiores, o que impede uma contagem absolutamente exacta.

No caso das fotografias publicadas pelo DIÁRIO, uma das imagens corresponde a um pormenor da assistência visível noutra fotografia. Por isso, não faria sentido somar os participantes identificados em ambas.

A imagem divulgada pelo JM oferece uma perspectiva mais ampla do anfiteatro, permitindo observar a distribuição dos presentes pelas várias filas. A fotografia é compatível com uma assistência próxima da centena de pessoas, embora a distância e a sobreposição de participantes dificultem a identificação individual.

Também esclarecedora é a imagem da RTP Madeira. Captada praticamente de frente, mostra a assistência distribuída pelas bancadas e duas pessoas de pé no centro do anfiteatro.

Dividimos a imagem em três sectores, da esquerda para a direita, para facilitar a contagem e reduzir o risco de duplicações. O exercício permitiu estimar cerca de 28 pessoas no sector esquerdo, 29 no central e 35 no direito, num total aproximado de 92 participantes.

Este número não deve ser entendido como uma contagem exacta. A iluminação, a distância e a presença de pessoas parcialmente ocultas aconselham prudência. Ainda assim, a margem de incerteza não é suficiente para sustentar a afirmação de que estiveram menos de 50 pessoas.

Há outro aspecto a considerar. As imagens dos três órgãos de comunicação social podem corresponder a momentos diferentes da reunião, que se prolongou por mais de uma hora. Não permitem, por isso, estabelecer com rigor o número total de cidadãos que passaram pelo local. Mas permitem avaliar a ordem de grandeza da assistência.

A título complementar, consultámos o arquivo do DIÁRIO, procurando referências à participação em manifestações realizadas na Madeira. Os registos mostram realidades distintas, desde concentrações com algumas dezenas de participantes até protestos que mobilizaram várias centenas de pessoas.

Por exemplo, em Maio de 2002, o DIÁRIO noticiou cerca de 300 participantes numa manifestação do Dia do Trabalhador. Em Outubro do mesmo ano, um protesto sindical junto à Assembleia Legislativa reuniu mais de 500 trabalhadores. Em Julho de 2010, outra mobilização sindical, na baixa do Funchal, terá juntado entre 400 e 500 pessoas.

Estes antecedentes não permitem estabelecer um padrão de adesão às manifestações na Região, até porque as causas e os públicos mobilizados são diferentes. Servem, no entanto, para mostrar que a participação varia consideravelmente.

Outras das coisas que se impõem é distinguir a iniciativa de domingo de uma manifestação propriamente dita. O encontro no Jardim Municipal foi uma assembleia preparatória, destinada a eleger porta-vozes e organizar os trabalhos para o protesto de Novembro. Não seria correcto comparar directamente a assistência a esta reunião com a de manifestações de rua.

A análise das imagens, incluindo uma fotografia de maior resolução, não publicada, que mostra praticamente toda a assistência, aponta para uma participação na ordem das cem pessoas, podendo mesmo ultrapassar esse número. Não é possível estabelecer uma contagem exacta, devido à sobreposição de alguns participantes. Ainda assim, os registos disponíveis confirmam que a assistência foi substancialmente superior a cinquenta pessoas, contrariando a afirmação do leitor e sustentando a estimativa publicada pelo DIÁRIO. Por isso, a afirmação de J. Rodrigues é avaliada como falsa.

“Não chega a cinquenta (pessoas na assembleia pela Habitação) ” – J. Rodrigues, comentário no Facebook do dnoticias.pt