Quando a tragédia nos bate à porta
A devastação provocada pela depressão Kristin deixou marcas profundas, sobretudo no Centro do País. Parece que nos habituámos a ouvir nas notícias, tempestades e avisos com nomes de pessoas com tal regularidade que pensámos (erradamente) que esta seria apenas mais uma. Normalmente quando elas passam por Portugal, basta-nos ter um pouco mais de cuidado, fechar bem as janelas e evitar estacionar os carros debaixo de árvores mas desta vez foi diferente. E o resultado está bem à vista. Mortes, gente que ficou sem casa e que viu o trabalho de uma vida ir por “água abaixo”, negócios estilhaçados, prejuízos avultados e a sensação de que não fomos avisados da força absolutamente avassaladora com que a mesma se aproximou. Para quem a viveu de perto, foi a sensação de estar a presenciar um filme de terror, a noção de impotência e a incapacidade para proteger o que quer que fosse. Eu tenho grande parte da minha família e alguns amigos na região onde tudo aconteceu e os relatos são duros de ouvir. Na realidade, passamos a vida a ver casos destes na televisão, que se sucedem bem longe daqui e não tínhamos a mínima ideia do que seria sentir na própria pele um evento desta natureza.
A ansiedade causada por não conseguirmos chegar à fala com os que nos são mais próximos, sem termos notícias dos mesmos porque a rede colapsou e o desespero para tentar entrar em contacto de todas as formas possíveis e imaginárias. Num tempo em que tudo é fácil e prático, em que nos vemos e ouvimos à distância de uma chamada em qualquer parte do Mundo, ficar sem esse “chão” e esse facilitismo era algo para o qual não estaríamos preparados. É doloroso de ver, o rasto de destruição e os prejuízos que terão um impacto significativo para o que aí vem. Se já não é fácil construir, criar e desenvolver, é ainda mais difícil e frustrante perceber que é agora necessário voltar atrás, fazer de novo, lamber as feridas e recomeçar, em alguns casos muito próximo do zero. Tenho a ideia de que quem vive em Lisboa não teve nem tem sequer noção do que por ali se passou. E custa-me perceber que continuamos a assistir a um País a várias velocidades, que se importa mais com uns do que com outros e que não tem a capacidade de chegar aos que mais precisam num formato mais rápido e contundente. Tivesse acontecido o que aconteceu na capital e provavelmente grande parte das situações estariam próximas da normalidade mas não é isso que estamos a presenciar.
Se o Estado existe por alguma razão, essa é a de assegurar o apoio e a ajuda necessária em tempos de crise profunda. Espero sinceramente que a partir de agora esse apoio seja feito com agilidade e rapidez, que não se prolonguem decisões nem se atrasem soluções para que se possam minorar os estragos. No meio de toda esta convulsão uma notícia boa que não é propriamente uma surpresa. A capacidade de entre-ajuda e de solidariedade dos portugueses. Muitos foram os que se organizaram e que se prontificaram para em poucas horas dar assistência aos que estavam a passar por esta situação. Ações e gestos tão importantes e que ficam como marca de água num quadro triste e cinzento. Foram mais uma vez os amigos, os vizinhos, os que vivem noutra cidade e até os que não se conhecem que foram para o terreno prestar o primeiro apoio perante tamanha aflição. A onda solidária cresceu e desenvolveu-se entre campanhas orgânicas que nasceram da boa vontade de quem não se coíbe de estar lá quando mais é preciso. Que se registe esse reconhecimento que é no fundo um símbolo de Portugal, que quando é necessário une-se para acorrer seja a quem for. O meu desejo é de que rapidamente se reconstruam e que de uma forma ou de outra consigam ultrapassar com força e motivação mais uma tremenda contrariedade.
Frases soltas:
O treinador de futebol português Luís Castro que comanda a equipa brasileira do Grémio de Porto Alegre, no fim de uma derrota pesada para o campeonato, referiu-se à prestação da sua equipa como “um dia negro”. Expressão tantas vezes utilizada no vocabulário lusitano para acentuar quando nada corre bem. Logo vieram os puritanos, os que se ofendem por tudo e por nada, acusar de expressão racista. Como se houvesse alguma intenção de colocar esse peso no que foi dito. É triste de perceber que uma parte da sociedade se deixa levar por uns quantos que tudo fazem para encontrar alguma razão de combate, de critica ou de segregação. Luís Castro acabou por vir pedir desculpa pela declaração infeliz. Acho que fez mal. Não nos devemos deixar rebaixar nem permitir que nos imponham certos tipos de formas de estar que estão nos antípodas do que construímos enquanto sociedade.
A Organização Mundial da Saúde reportou esta semana dois casos de um vírus raro, chamado Nipah num estado do leste da Índia. Transmite-se de animais para humanos e mata mais de metade das pessoas infetadas. É considerado como nível de biossegurança quatro, o mais alto e por isso mais perigoso. Esperemos que não alastre para que não tenhamos que passar por mais uma pandemia, esta sim verdadeiramente letal.