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Haiti enfrenta aumento de violência sexual à medida que se intensificam lutas entre gangues

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Foto ShutterStock

O número de casos de abuso sexual tratados numa clínica na capital do Haiti triplicou nos últimos quatro anos, à medida que a violência de gangues se espalha pelo problemático país caribenho, alertou hoje uma organização de saúde.

A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) está "alarmada e indignada" com o nível avassalador de violência sexual e baseada no género.

"O aumento dos números é chocante", afirmou Diana Manilla Arroyo, chefe da missão do grupo no Haiti, numa entrevista por telefone a partir de Havana. "Não se trata apenas da quantidade, mas também da gravidade."

Mais de metade dos pacientes tratados na clínica Pran Men'm, aberta há uma década em Porto Príncipe, foi atacada por vários membros de grupos armados.

"Mais de 100 pessoas foram atacadas por 10 ou mais agressores de cada vez", lê-se num relatório da organização, que aponta uma média de três agressores por caso.

A clínica tratou quase 17.000 pacientes na última década, incluindo 2.300 apenas nos primeiros nove meses do ano passado. Mais de 350 desses pacientes são rapazes e homens, segundo os MSF.

A demografia das vítimas também mudou. Antes de 2022, metade dos casos na clínica envolvia pacientes com menos de 18 anos, comparativamente com 24% atualmente. O número de casos na faixa etária dos 50 aos 80 anos aumentou sete vezes, segundo os MSF.

Estimativas indicam que os gangues controlam cerca de 90% de Porto Príncipe, recorrendo frequentemente ao abuso sexual para incutir medo, segundo especialistas.

O abuso ocorre durante sequestros, tomadas de território e para controlar a ajuda humanitária, explica a MSF. Particularmente vulneráveis são os que vivem em abrigos improvisados, com a violência dos gangues a deslocar um recorde de 1,4 milhões de pessoas em todo o Haiti nos últimos anos, segundo a ONU.

Quase 70% das pessoas que procuraram ajuda entre janeiro e setembro de 2025 após terem sido vítimas de abuso sexual eram deslocadas, segundo a ONU.

Entretanto, os MSF afirmaram que a sua clínica enfrenta dificuldades em encontrar abrigos dispostos a acolher os pacientes, e salientou que mulheres com filhos, grávidas ou que necessitam de cuidados médicos são frequentemente rejeitadas.

Por outro lado, o receio de denunciar casos de abuso sexual persiste devido ao estigma contínuo e à falta de confiança na polícia e no sistema judicial do Haiti. Outro motivo para evitar cuidados médicos é a preservação da própria vida: os civis têm sido espancados ou mortos por grupos de vigilantes se viverem num bairro controlado por um gangue, uma vez que são automaticamente associados ao grupo armado.

Para combater o estigma, uma organização local sem fins lucrativos aproxima-se das mulheres através das artes, teatro e música, permitindo que sobreviventes escrevam e partilhem as suas experiências em grupos de foco num ambiente seguro.

"Encontram uma forma de compreender a sua própria realidade, as suas próprias experiências", disse Pascale Solages, coordenadora do grupo feminista independente haitiano Nègès Mawon. "Pode ser difícil", acrescentou.

Os MSF apelaram ao Governo do Haiti para alocar mais fundos a cuidados de saúde gratuitos e serviços para sobreviventes de abuso sexual.

"Uma medida imediata e prática que poderia aplicar é uma linha de apoio governamental, operada 24 horas por dia, sete dias por semana, para fornecer orientação confidencial e ligar as sobreviventes a recursos essenciais", sustentam os MSF.