Nós e enredos
As novelas faziam parte da nossa vida, davam depois do telejornal e as pessoas copiavam a roupa e baptizavam os filhos com os nomes dos personagens
É a minha quinta capicua e sinto que não me preparei para ter estes anos todos, nem para o algoritmo do telefone que me recomenda receitas de bolos, cortes de cabelo com madeixas louras e insiste em dar-me os resumos das histórias de personagens de telenovelas que nem sei quais são. Não reconheço os nomes, nem os títulos, não sei quem são os actores e os enredos baralham-me. Sou capaz de intuir que há um rapaz pobre e uma rapariga rica ou o contrário, apaixonados e boas pessoas, mas perseguidos por uma vilã ou um vilão sem escrúpulos que tudo faz para arruinar a vida dos infelizes e garantir aquelas voltas todas na história.
As novelas faziam parte da nossa vida no Laranjal, davam depois do telejornal e as pessoas copiavam a roupa, os penteados e baptizavam os filhos com os nomes dos personagens. O entusiasmo era tão grande que se comentava o episódio da noite anterior no autocarro e havia muita curiosidade para saber se a rapariga casava com o rapaz no fim. Mesmo ali, naquela curva de caminho de onde avistava o mar e os telhados da cidade, seguia-se a novela como um ritual e com paciência para aguentar os recuos, as mudanças e os impasses que duravam vários episódios. O fim irritava sempre a minha mãe por ser apressado ou por não vingar as maldades do vilão.
A vida lá por cima não era cor-de-rosa e não era de muitas maneiras. As pessoas trabalhavam muito, ganhavam pouco e, a meio dos anos 80, falava-se tanto do custo de vida e da política como dos casamentos à pressa para tapar uma gravidez na vizinhança. Ou pelo menos a minha mãe não falava de outras coisas e a novela, que ouvia mais do que via enquanto bordava à luz do candeeiro articulado, era uma fuga para o romance, para casas bonitas e para vingar os maus. Não sei quantas segui, mas foram muitas, umas mais populares; outras mais confusas, todas com o mesmo modelo.
O algoritmo não sabe que preenchi a minha quota de novelas há anos e que só acho graça às antigas, mais por me lembrarem quem fui e por trazerem memórias da minha mãe, das conversas com as mulheres dos bordados e com as minhas tias e por me fazer recuar ao tempo em que era nova e não uma senhora já na quinta capicua, que é uma maneira de dizer que fiz há dias 55 anos. E tenho a idade que a minha mãe tinha quando víamos as novelas sentadas no sofá da sala, as duas encantadas com as roupas e as casas. A casa rica tinha sempre uma escadaria interior e salas amplas, com sofás e quadros na parede e um jardim com relva e uma piscina.
E a minha mãe achava bonito, mas depois dizia que a nossa não era má. Tinha duas salas e um jardim colorido que até os estrangeiros tiravam fotografias. O que nos confortava, naqueles serões de telejornal e telenovela e que eram mais ou menos os mesmos em todas as casas da vizinhança. Pelo caminho, beco acima, as famílias juntavam-se todas no quarto da televisão e assistiam maravilhadas as histórias, com avanços e reviravoltas, daqueles personagens que quase pareciam de verdade, que choravam e riam e arrastavam até as pessoas do Laranjal para aquele mundo de fingir, tão diferente da realidade por mais que a minha mãe, que tinha muito orgulho na casa e no jardim, repetisse que a nossa vida não era assim tão má.
Má não era, mas faltava um lago para peixes com repuxo no jardim e uma escadaria com um lustre de cristal no tecto como os das casas dos ricos, pensava eu, a Lina Marta, que olhava para a mãe e para tias, todas a meio dos 50 anos, e só via mulheres demasiado maduras e muito conformadas e não percebia como era injusta. Isso a idade iria mostrar-me depois.