Já chega!!!
Os resultados eleitorais de domingo, independentemente do juízo político que se faça sobre os candidatos (fracos) ou propostas, não podem ser ignorados pelos líderes políticos da Região Autónoma da Madeira.
Mais do que um fenómeno conjuntural ou um voto de protesto, estes resultados funcionam como um sinal claro de um descontentamento acumulado, revelando falhas estruturais na governação regional e um afastamento crescente entre o poder político e uma parte significativa da população.
Durante mais de 50 anos a Madeira foi governada sob uma lógica de estabilidade política quase ininterrupta. Essa continuidade trouxe ganhos evidentes em infraestruturas, projeção externa e coesão territorial, no entanto é preciso não esquecer que a longevidade no poder também gerou vícios, acomodação e excesso de confiança.
É precisamente neste “terreno inseguro” que os discursos anti-sistema encontraram espaço para crescer e cresceram.
É preciso avaliar de forma pormenorizada os principais fatores de insatisfação dos eleitores. O custo de vida, por exemplo, e em particular no que respeita à habitação. O aumento dos preços, impulsionado pelo turismo, pelo alojamento local e pela procura externa, não foi acompanhado por políticas eficazes de proteção das famílias madeirenses e dos seus habitantes. Os jovens trabalhadores, mesmo com emprego, veem-se impossibilitados de sair da casa dos pais ou de permanecer na região. A perceção de que o Governo Regional protege mais investidores do que residentes, alimenta a frustração e a revolta.
A isto soma-se a emigração jovem e qualificada, um problema antigo que continua sem resposta estrutural. A Madeira forma talentos que depois não consegue reter, seja por salários baixos, falta de progressão profissional ou mercados fechados e pouco competitivos.
Assim, os chamados “Movimentos Populistas” prosperam precisamente onde os cidadãos sentem que “os mesmos estão sempre no poder” e que a alternância é, na prática, impossível.
Por fim, há um evidente cansaço do discurso tradicional e que nada traz de novo. Surgem sempre as mesmas caras e os mesmos discursos. A Autonomia, essa que foi e continua a ser uma conquista fundamental, não pode servir como escudo para evitar o debate interno, a renovação política e a correção de erros. Quando os líderes regionais desvalorizam sinais de protesto ou os classificam apenas como ignorância ou radicalismo, estão a reforçar a narrativa daqueles que se apresentam como a única alternativa ao sistema.
Os resultados não são, por si só, a solução para os problemas da Madeira! São um aviso sério!
Ignorá-los ou destratá-los seria repetir erros já vistos noutros contextos. A resposta não deve ser o medo, mas a reforma, mais transparência, mais políticas públicas orientadas para quem vive e trabalha na região, mais abertura à crítica e, sobretudo, mais humildade política.
Se a liderança madeirense não fizer esta leitura com honestidade, outros farão por ela, nas urnas e com o seu voto.