António Costa considera que os EUA testam princípios europeus
O presidente do Conselho Europeu garante que UE vai rejeitar qualquer coerção
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, considerou hoje que os princípios e a protecção da União Europeia (UE) "estão a ser postos à prova" pelos Estados Unidos, mas prometeu resposta a "qualquer forma coerção" sobre a Gronelândia.
"Considerados em conjunto, os desafios geopolíticos que a Europa enfrenta parecem, por vezes, avassaladores [...], mas a UE sairá desta situação mais forte, mais resiliente e mais soberana. Para que isso aconteça, a nossa resposta deve ter três componentes: uma Europa de princípios, uma Europa de proteção e uma Europa de prosperidade -- três dimensões [que] estão a ser postas à prova no momento atual das relações transatlânticas", disse António Costa, intervindo num debate no Parlamento Europeu.
O antigo primeiro-ministro português vincou que a UE "está pronta para se defender [...] contra qualquer forma de coerção" e tem "o poder e os instrumentos para o fazer".
Nas declarações na cidade francesa de Estrasburgo, António Costa justificou que foi devido ao contexto de ameaças norte-americanas relativas à Gronelândia, um território autónomo da Dinamarca, que decidiu convocar para esta quinta-feira uma reunião extraordinária do Conselho Europeu sobre as relações transatlânticas.
"Tendo ouvido os Estados-membros na preparação desta reunião, acredito que alguns elementos fundamentais são amplamente partilhados", entre os quais o "apoio e solidariedade totais com o Reino da Dinamarca e com a Gronelândia" e o facto de que "apenas eles podem decidir sobre o seu futuro".
António Costa admitiu também "um interesse transatlântico comum na paz e na segurança no Ártico, nomeadamente através do trabalho no âmbito da NATO", mas vincou que "novas tarifas prejudicariam as relações transatlânticas e são incompatíveis com o acordo comercial UE-EUA".
"Queremos continuar a envolver-nos de forma construtiva com os Estados Unidos em todas as questões de interesse comum - e são muitas, uma vez que somos parceiros e aliados e partilhamos uma comunidade transatlântica"-, mas "não podemos aceitar que a lei do mais forte prevaleça sobre os direitos do mais fraco porque as regras internacionais não são opcionais e as alianças não podem reduzir-se apenas a uma sucessão de transacções", adiantou o presidente do Conselho Europeu.
Von der Leyen denuncia poder bruto
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, prometeu hoje trabalhar num pacote de apoio à segurança no Ártico com "forte aumento do investimento europeu na Gronelândia", face ao que classificou como "poder bruto" dos Estados Unidos.
"A Europa prefere o diálogo e as soluções, mas está plenamente preparada para agir, se necessário, com unidade, urgência e determinação. Mas, para além disso, precisamos da nossa própria abordagem estratégica e é por isso que estamos a trabalhar num pacote de apoio à segurança no Ártico", com "um forte aumento do investimento europeu na Gronelândia, em particular para apoiar ainda mais a economia local e as infraestruturas", disse a líder do executivo comunitário, no mesmo debate no Parlamento Europeu.
Isso passa, desde logo, por "duplicar o apoio financeiro" da UE, no âmbito do próximo orçamento comunitário, acrescentou Von der Leyen, defendendo porém que a União tem de "fazer mais e fazê-lo mais rapidamente".
Face às ameaças norte-americanas relativas à Gronelândia, um território autónomo da Dinamarca, Ursula von der Leyen falou ainda num "mundo definido pelo poder bruto, seja ele económico ou militar, tecnológico ou geopolítico", com o qual a UE "tem de lidar".
Apesar de vincar que a UE "concorda com os amigos norte-americanos quanto à necessidade de garantir a segurança da região do Ártico", a responsável considerou que as tarifas adicionais propostas pelos Estados Unidos face à ocupação norte-americana da Gronelândia "são simplesmente erradas".
"Se entrarmos agora numa perigosa espiral descendente entre aliados, isso apenas encorajará os mesmos adversários que ambos estamos tão empenhados em manter fora do nosso espaço estratégico", salientou.
Reconhecendo as potencialidades do território autónomo da Dinamarca em termos de matérias-primas críticas e de rotas marítimas globais emergente, a líder do executivo comunitário avisou: "Acima de tudo, a Gronelândia é a casa de um povo livre e soberano, é uma nação com soberania própria e com direito à integridade territorial e o futuro da Gronelândia cabe apenas aos gronelandeses decidir".