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Mulher denuncia detenção ilegal de cidadão luso-venezuelano (Vídeo)

As imagens foram cedidas pela família ao DIÁRIO

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É desde Paris, que a mulher de Jaime Orlando dos Reis Macedo, cidadão venezuelano-português detido na Venezuela, denuncia a operação nocturna violenta e ilegal que resultou na detenção do marido, que permanece sem qualquer apresentação a tribunal e sem enquadramento jurídico conhecido, situação que classifica como um “fantasma jurídico” com risco real de desaparecimento forçado, e que hoje o DIÁRIO faz notícia na sua edição impressa.

Em relato feito em tom emocionado, a mulher descreve que tudo aconteceu cerca das 4 da manhã, quando homens armados bateram violentamente à porta da residência do casal. Segundo conta, os indivíduos nunca se identificaram, recusaram indicar a força policial a que pertenciam e não apresentaram qualquer mandado de busca ou de detenção, como exige a lei venezuelana. “Perguntei quem eram, pedi ordem judicial, pedi um juiz ou um procurador. Não havia nada disso”, afirmou.

Perante a insistência e os golpes na porta, acabou por abrir, momento em que relata ter sido apontada com uma arma de guerra dentro da própria sala. Os homens exigiram apenas o cartão de identidade venezuelano de Jaime e o seu telemóvel, obrigando-o a desbloqueá-lo. Pouco depois, o marido foi levado do apartamento. A mulher conseguiu gravar o momento em que ele era colocado no elevador, identificando dois dos agentes com o rosto descoberto, um dos quais, afirma, ligado directamente a altas figuras do poder político venezuelano.

Após a detenção, Jaime Orlando dos Reis Macedo permaneceu 18 dias desaparecido, sem que a família tivesse qualquer informação oficial sobre o seu paradeiro. A divulgação do vídeo levou, segundo a denunciante, a uma perseguição directa contra si, obrigando a família a retirá-la do país. Fugiu apenas com a roupa que tinha vestida e o passaporte, numa viagem de 14 horas por estrada até à Colômbia.

A perseguição, garante, não terminou com a saída da Venezuela. Já em território colombiano, relata episódios de vigilância, intimidação e perseguição em transportes públicos, bem como ameaças associadas ao seu trabalho numa fundação de apoio a migrantes venezuelanos. Apesar de contactos com as autoridades de segurança colombianas e de alguma protecção temporária, acabou por abandonar também a Colômbia, refugiando-se em França, junto de familiares ligados à oposição venezuelana no exílio.

Segundo Virgínia Escobar, a detenção de Jaime terá como "objectivo pressionar familiares e pessoas próximas, figuras públicas e defensores dos direitos humanos, a alterarem o discurso político a favor do regime". Alega que o marido "nunca foi apresentado a tribunal. Não existe processo, não existe acusação. Ele não existe juridicamente”, afirma.

A denunciante diz viver com receio permanente, agravado por notícias recentes da descoberta de corpos no rio Guaire, em Caracas, que associa a presos políticos desaparecidos. Por isso, decidiu tornar pública a história. “Já não temos medo. Se ele continuar invisível, corremos o risco de que o façam desaparecer para sempre”, alerta.

O caso de Jaime Orlando dos Reis Macedo integra uma lista extra-oficial de cidadãos com nacionalidade portuguesa ou dupla nacionalidade alegadamente detidos na Venezuela, cuja situação continua envolta em silêncio e sem confirmação judicial pública.