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Algoritmos alteraram espaço político e lei eleitoral pouco refere redes sociais

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A lei eleitoral em vigor tem poucas referências à utilização das redes sociais e à evolução dos algoritmos, que estão a alterar o espaço político, a amplificar populismos e a radicalizar discursos, segundo especialistas ouvidos pela Lusa.

"A forma como o algoritmo se está a transformar ele próprio num espaço institucional com capacidade para influenciar, para condicionar a construção de mensagem, a determinação do político e do perfil em que ele se enquadra e a forma como ele está presente no espaço público, mediático e digital é muito importante e crescente nas campanhas [eleitorais] atualmente", explicou à Lusa o analista político André Pereira.

Para o também professor convidado no ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, esta questão tem-se sentido de forma "muito significativa" na campanha para as eleições presidenciais, com a utilização das várias plataformas "onde é possível comunicar com muita regularidade, de forma breve, sintética, com mensagens muito diretas, com mensagens com o propósito de, em muitos contextos, gerar uma rutura, uma diferenciação entre o nós e o eles".

Assim, apontou, os algoritmos nas redes sociais "estão a alterar o espaço político, a amplificar populismos e a radicalizar discursos que se tornam mais virais e divulgados quanto mais polarizados e agressivos forem".

Segundo André Pereira, a lei eleitoral de 2015 tem poucas referências à utilização das redes sociais e "eventualmente, beneficiaria de uma revisão que acompanhe a evolução da comunicação em contexto digital", lembrando que, em Portugal, no período eleitoral, é proibido fazer propaganda através de meios de publicidade comercial. "Porque não no digital?", questionou.

Já Vicente Valentim, cientista político e professor na IE University, salientou, em resposta escrita à Lusa, que "o aparecimento das redes sociais alterou a forma como os políticos comunicam com os eleitores, levando-os a pôr mais ênfase em mensagens de teor fortemente emocional" e que isto é "particularmente notório no caso de partidos populistas, cujas mensagens nas redes sociais apelam mais a emoções como medo e tristeza".

Adicionalmente, acrescentou, as redes sociais premeiam uma comunicação rápida, focada em 'soundbytes', em detrimento de uma discussão mais profunda dos temas e fazem com que os políticos passem a comunicar mais com o núcleo duro dos seus apoiantes, em vez de apelarem a um eleitorado mais vasto.

"Em geral, a lógica dos algoritmos está orientada para incentivar envolvimento e participação, de forma a gerar o máximo lucro possível" e "tudo o que promova mais reações nos utilizadores, incluindo a participação em debates polarizados, tende a conseguir mais atenção", realçou a investigadora em comunicação política Susana Salgado, em resposta escrita à Lusa.

Já sobre a forma como os algoritmos podem ou não condicionar a preparação de uma campanha eleitoral pelos candidatos, a investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL) salientou que "praticamente todos os partidos e todos os candidatos têm sempre uma estratégia para as redes sociais, a par das estratégias habituais para lidar com a imprensa".

Podem ainda levar a "pequenos ajustes nos discursos de campanha, nomeadamente em termos de temas abordados pelos candidatos, para irem ao encontro dos "trending issues" [tendências] e/ou para beneficiarem da popularidade ou interesse do público em relação a determinadas figuras", acrescentou Susana Salgado.

Segundo os especialistas ouvidos pela Lusa, os partidos que mais beneficiam do desenvolvimento das redes sociais são os mais afastados do centro e os partidos e movimentos emergentes, menos condicionados pela comunicação política tradicional e institucional.

André Pereira realçou o crescimento da extrema-direita e dos fenómenos populistas entre os mais jovens, que populam as redes sociais, sobretudo o TikTok, salientando que o candidato presidencial apoiado pela Iniciativa Liberal, João Cotrim Figueiredo, lidera as sondagens nesta faixa etária, seguido do candidato apoiado pelo Chega, André Ventura.

Já entre os 35 e os 54 anos, a primeira geração a ter redes sociais, André Ventura lidera.

"Há imenso tipo de conteúdo que é ótimo para o TikTok mas que não ficaria bem no Instagram e muito menos na televisão. Esse tipo de conteúdo é difícil de fazer bem e ainda mais difícil de os candidatos tradicionais aceitarem fazer", explicou.

Como salientou Vicente Valentim, os "partidos novos, que ainda não têm uma forma típica de comunicar com o seu eleitorado, têm mais maleabilidade e maior capacidade de se adaptar às redes sociais" - como o Chega, a Iniciativa Liberal, o PAN ou o Livre - estão mais preparados para esta nova forma de comunicação.

Questionados sobre se o algoritmo nas redes sociais pode influenciar eleições, Vicente Valentim referiu que "de um modo geral, a maior parte dos estudos concluem que as redes sociais mudaram muito a forma como os políticos fazem campanha, mas os efeitos sobre resultados eleitorais são modestos, até porque, mesmo fora das redes sociais, as campanhas eleitorais tendem a ter efeitos modestos".

No mesmo sentido, André Santos Pereira acredita que ainda não existe informação suficiente para dizer que o algoritmo tem capacidade para determinar, ou pelo menos para condicionar, o voto. "Creio é que nós já temos condições para dizer que não podemos excluir que essa seja uma realidade potencial", acrescentou.

Já para Susana Salgado, o algoritmo "pode certamente influenciar as campanhas eleitorais (o ambiente, os temas, a polarização)", salientando que "há estudos que demonstram que os algoritmos são, em determinadas ocasiões, manipulados para criar climas de apoio a determinadas ideias e/ou determinados candidatos".

"Sabe-se igualmente que as plataformas podem dar prioridade ou não a determinados conteúdos para servir agendas específicas", referiu, acrescentando que "não há estudos que permitam concluir se influencia o voto de forma decisiva, mas é expectável que ao influenciar a perceção dos eleitores sobre determinados temas e determinados candidatos possa também desta forma influenciar o voto".