Os bailes
Na minha cabeça todos os salões de baile tinham uma escadaria que se descia, um chão a brilhar onde se deslizava a dançar
A primeira vez que ouvi falar de bailes de fim de ano foi no muro que dava para o campo de futebol da escola dos Ilhéus, devia ter uns 14 anos e o assunto era o tema de conversa depois das férias entre o grupo de raparigas que, todos os dias, se encostava ali, enquanto os rapazes jogavam à bola. Já era uma sorte estar ali e tentei ser ainda mais invisível não fosse alguém perguntar onde tinha sido o meu. A minha imaginação não dava para inventar um em casa da minha tia Alice, com uma bola de espelhos no tecto da sala e música alta no gira-discos do móvel da televisão.
A noite acabara pouco depois do fogo, da canja de arroz a queimar o céu da boca e das duas ou três sandes de galinha. O meu pai, o meu tio Humberto, o meu irmão ainda viram com atenção as pernas altas das dançarinas do Folie Bergeres, mas pouco depois da uma já eu estava na minha cama a ler. A Lina Marta adolescente dividia o coração entre os livros e a comida e não sabia dizer o que gostava mais. Os olhos começavam a acusar a miopia que me iria obrigar a usar óculos; enquanto a fome - que nunca me abandonava - via-se ao espelho, nos oito quilos a mais.
As minhas paixões não me tornavam uma pessoa popular; a timidez e a falta de jeito também não. E ser do Laranjal, onde as pessoas viam o fogo nas varandas e não sabiam sequer que havia bailes nos hotéis, era quase uma guia de marcha para os confins da escala social do intervalo dos Ilhéus. Encostadas ao muro, as raparigas da minha turma, havia várias mais velhas, com 15 e 16 anos, contavam, ao detalhe, os bailes e os rapazes com quem se tinham cruzado e com quem tinham dançado ‘slows’.
Os vestidos de tafetá e veludo, os cabelos com gel e laca de brilhantes e os rapazes que, na verdade, eram já homens feitos. O amor corria veloz e livre até para as adolescentes do 8º e 9º ano e a maioria tinha pressa de ser adulta e independente. Eu também queria e, nesse dia, fiz a viagem de autocarro com o olhar no infinito, a tentar perceber como teriam sido, de facto, esses bailes, em hotéis que só conhecia de nome. A minha tia Conceição trabalhava num, o Girassol, onde se faziam festas dessas, mas só sabia como era por fora e no Casino nunca tinha passado da sala de cinema.
Na minha cabeça todos os salões de baile tinham uma escadaria que se descia, um chão a brilhar onde se deslizava a dançar e, por cima da cabeça, pendiam candeeiros de cristal e, em frente, grandes portas com vista para um jardim, para onde se fugia para apanhar ar fresco e dar beijos na boca. E, no salão, por entre os homens de smoking e as mulheres de vestido comprido e lantejoulas, circulavam empregados com bandejas de copos e aperitivos.
Os bailes pareciam-me mais bonitos e elegantes que as discotecas, escuras e com uma bola de espelhos no tecto, mas a música devia ser melhor, mais parecida com a que dava na rádio. E era quase como as festas que o grupo de jovens organizava no salão paroquial, quando apagavam as luzes e os pares de namorados dançavam agarrados. Essas eu sabia como eram, tinha havido várias no Verão em que se organizou um espectáculo de teatro, foi o mais perto que estive de uma matiné e de uma discoteca.
E tive de esperar uns anos até entrar num baile, mas o salão não tinha uma escadaria, nem um jardim, nem as luzes brilhavam tanto como eu imaginei naquele início de Janeiro, no autocarro a caminho de casa. A adolescente gordinha, tímida e desajeitada que tinha sido até aquela conversa depois das férias nem sabia que se podia celebrar o ano novo noutro lugar além da varanda da minha tia Alice, nem que havia melhor do que queimar o céu da boca a beber a canja de chávena, depois de abraçar todas as pessoas de quem gostava. E não havia, mas isso eu ainda não sabia.