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OMS relata "desespero e escassez de tudo em todo o lado" em Gaza

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Foto MOHAMMED SABER  

Um responsável da Organização Mundial da Saúde (OMS), Ayadil Saparbekov, afirmou hoje que "há desespero e escassez de tudo em todo o lado" na Faixa de Gaza, relatando que o sistema de saúde do enclave palestiniano está em colapso.

"Apenas 11 dos 36 hospitais que existiam na Faixa de Gaza estão a funcionar parcialmente. Prestam alguns serviços básicos, dependendo da quantidade de alimentos que possam ter e da quantidade de material médico, produtos farmacêuticos e descartáveis que possam ter", disse o representante da agência da ONU, um dia após regressar do território, palco de intensos bombardeamentos israelitas desde outubro passado.

O responsável pelas emergências sanitárias da OMS nos Territórios Palestinianos Ocupados falava numa conferência organizada pelo centro de estudos britânico Chatham House e fez o diagnóstico: "O sistema de saúde está a entrar em colapso".

"Há cerca de 9.000 pessoas que precisam de ser retiradas de Gaza para receberem os serviços de saúde que atualmente não estão disponíveis: pessoas com diferentes tipos de doenças não transmissíveis, diabetes, diferentes tipos de cancro", referiu.

Outros problemas são um número significativo de pacientes que necessitam de cirurgias complicadas e as restrições à entrada de material e equipamento médico pelas autoridades israelitas.

Em 30 anos a trabalhar para a ONU, com passagens anteriores nos conflitos de Darfur, Afeganistão, Kosovo, Iémen e Ucrânia, Saparbekov não tem dúvidas de que o que viu em Gaza é pior. 

"Não há nada que possa comparar a minha experiência de estar numa zona de guerra com o que tenho vivido em Gaza desde o início da guerra. O sofrimento humano está simplesmente para além das palavras. Há muito sofrimento humano e indignidade", descreveu.

Desde o início do conflito, revelou, a OMS registou cerca de 438 ataques a unidades de saúde, que resultaram em 722 mortes e em mais de 900 feridos.

Ghassan Abu-Sittah, membro fundador da organização humanitária Rede Internacional de Ajuda, Socorro e Assistência (INARA), indicou que mais de 400 médicos, enfermeiros e paramédicos foram mortos e 900 ficaram feridos. 

"Precisamos de um cessar-fogo. E depois precisamos da rápida injeção de hospitais de campanha e de um aumento da capacidade para permitir o tratamento das pessoas e a prestação de cuidados de saúde", vincou, durante a mesma conferência. 

"Alguns hospitais podem ser melhorados e reparados. Outros, como o de Al-Shifa e os hospitais pediátricos do norte, têm de ser construídos de raiz", avisou. 

Os especialistas falaram também da deterioração das condições sociais, nomeadamente a destruição das redes de saneamento e de abastecimento de água, falta de abrigo e concentração de pessoas em Rafah (pequena cidade do sul de Gaza), que está a contribuir para a propagação de doenças infecciosas.

Também na mesma conferência, Rebecca Inglis, cofundadora da organização Gaza Medics Voice, salientou o nível de fome e subnutrição generalizada e explicou que só não foi ainda formalmente declarada crise de fome porque é difícil associar o aumento da mortalidade a esta causa numa zona de guerra.  

De acordo com um relatório anterior, quase 66% dos agregados familiares no norte do país relataram que as pessoas passaram dias e noites inteiros sem comer durante pelo menos 10 dos 30 dias anteriores.

Segundo Rebecca Inglis, a fome deixará sequelas nas vítimas, nomeadamente em termos de desenvolvimento cognitivo e da saúde das crianças.

A gravidade da situação deveu-se ao controlo total das fronteiras, aos bombardeamentos israelitas contínuos durante os últimos seis meses e à destruição das infraestruturas agrícolas, argumentou a representante.

"Quando falamos de fome, o que realmente significa nesta situação é que Israel está a matar à fome o povo de Gaza. Isto é a fome como arma de guerra. É uma forma de punição coletiva que está a ser imposta", acusou.