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Conselheira de Guterres critica "quase subserviência" de África à ajuda ao desenvolvimento

Cristina Duarte, subsecretária-geral e conselheira do secretário-geral para África.  Foto DR/ONU
Cristina Duarte, subsecretária-geral e conselheira do secretário-geral para África.  Foto DR/ONU

A subsecretária-geral das Nações Unidas e conselheira especial do secretário-geral para os Assuntos Africanos criticou a "quase subserviência" de África em relação à ajuda pública ao desenvolvimento, quando o continente já financia mais de 75% do seu crescimento.

"África já financia mais de 75% do seu desenvolvimento, entre receitas e, digamos, poupanças em geral. Não é a ajuda pública ao desenvolvimento e não é o investimento direto estrangeiro que estão a financiar o crescimento e o desenvolvimento", por isso o "'mindset' [mentalidade] tem que mudar", afirmou Cristina Duarte, em entrevista à agência Lusa.

Porquê "uma atitude de quase subserviência em relação à ajuda pública ao desenvolvimento, quando não é essa ajuda a força motriz deste mesmo financiamento?", questionou a conselheira especial do secretário-geral da ONU, António Guterres, para os Assuntos Africanos, e ex-ministra das Finanças de Cabo Verde.

Mudar a mentalidade é o primeiro passo para alterar o paradigma do financiamento para o desenvolvimento em África, defendeu a subsecretária-geral da ONU, sublinhando que a mudança cabe "a todos", seja "os africanos fazedores de política e de políticas em África, sejam os parceiros".

Cristina Duarte considerou que a mentalidade está "excessivamente concentrada na gestão da pobreza" e o que deve acontecer é "tentar concentrar-se, focar-se, na gestão do desenvolvimento", sublinhando que "são duas coisas diferentes, gerir a pobreza e gerir o desenvolvimento".

A conselheira especial insistiu na ideia que vem defendendo de que "a África perde anualmente 500 biliões de dólares [cerca de 457 biliões de euros]" e é preciso ajudar os países africanos "a serem capazes de controlarem melhor os seus fluxos económicos e financeiros".

Com isso, sustentou, os países africanos terão mais espaço de formulação de políticas, e irá mudar o perfil de risco desses mesmos países, com África a aceder a financiamentos externos em que "a avaliação do risco país não é baixa e distorcida".

Cristina Duarte sublinhou também as prioridades definidas pelo secretário-geral, António Guterres, para África, destacando "apoiar de forma desinteressada" a implementação do "desenvolvimento sustentável" de forma efetiva e eficiente.

O sistema das Nações Unidas tem um papel a desempenhar, que é ajudar os países africanos a promover o seu próprio desenvolvimento, mas não é o sistema das Nações Unidas "que chega a África e que tem que promover o desenvolvimento", lembrou.

A instabilidade, agravada por golpes de Estado recentes em vários países africanos, foi também comentada à Lusa pela subsecretária-geral da ONU, que pediu "muito cuidado" e apelou ao bom senso "para não se generalizar".

África tem diversas geografias e culturas que se sobrepuseram e são foco de instabilidade, referiu, e "as democracias formais", disse, sublinhando o "democracias formais" em alguns países, "não em todos, não foram capazes de oferecer a inclusão social, a inclusão económica, a inclusão cultural".

"Temos que entender por que é que está a acontecer e não fazer uma avaliação com base em estereótipos", apelou Cristina Duarte, que na sexta-feira participa nas Conferências do Estoril, que vão decorrer na Nova SBE, em Carcavelos.