Análise

Pesadelos

A tarefa do actual líder do PS-M é, porém, bem mais difícil. A do PSD, bem mais fácil

1.O que ganham os portugueses com o triste espectáculo político que temos assistido nos últimos dias? A estabilidade é uma miragem em Portugal e o governo liderado por António Costa um pseudoprojecto em autodestruição, mergulhado em polémicas constantes que corroem a imagem das instituições democráticas. O Presidente da República também não fica bem nesta fotografia. A ‘diarreia’ verbal é má conselheira, a juntar a uma personalidade com um ego gigantesco, que precisa de constante aprovação popular. E, de facto, tudo o que nós não precisamos é de disputas entre dois galos, deste circo. Entretanto, o essencial e determinante para as nossas vidas, fica em suspenso, uma vez mais, mas com duas certezas: vamos ter um governo a prazo e um Presidente ainda mais (será possível?) interventivo.

Bem mais calmo vai o quotidiano político regional em ano de eleições. Contudo, há um partido que apanha por tabela e vai sofrer por arrasto, sem ter qualquer tipo de responsabilidade na tormenta nacional. Sérgio Gonçalves bem tenta ditar uma agenda que explore as incongruências e os falhanços do governo de Miguel Albuquerque, mas nada está a correr-lhe de feição. Não bastavam as facções internas, os jogos de bastidores promovidos por deputados ansiosos por saber que lugar vão ou não ocupar nas listas e pela sombra de Paulo Cafôfo, o primeiro-ministro oferece-lhe uma densa e pateta polémica, que vai ter repercussões. Indirectamente, o presidente do PS-M é fustigado por algo de que não tem culpa, mas que lhe vai complicar a vida e a difícil contabilidade eleitoral. Uma coisa é contar com um secretário-geral forte, a subir nos degraus da popularidade, campeão de votos e governante confiável. Outra é um Costa fustigado por uma catadupa de acontecimentos inadmissíveis, sem paralelo na vigência de uma confortável maioria absoluta. O exemplo do governo da República vai ser usado pelos adversários locais para atacar o PS-M que, verdade seja dita, sempre manteve uma relação mais próxima com os dirigentes de Lisboa do que alguma vez teve o PSD-M com a São Caetano à Lapa. Essa colagem adensou-se em 2019, com Cafôfo a arrecadar o melhor resultado de sempre em eleições regionais, conseguindo eleger 19 deputados. O PS nacional estava em crescendo naquele ano e isso fez-se notar na campanha regional. A tarefa do actual líder do PS-M é, porém, bem mais difícil. A do PSD, bem mais fácil. Tem quase tudo a seu favor a nível económico. Sérgio Gonçalves tem pouco para oferecer e deve estar a rezar para que António Costa não se lembre de vir à Madeira. Isso só lhe iria complicar (ainda) mais a vida. É que fazer a defesa do injustificável e com uma lista de assuntos pendentes entre Funchal e Lisboa ainda não resolvidos, é carga a mais.

2. O que leva os pais de crianças de 6, 7 e 8 anos a insultarem outras crianças da mesma idade durante um jogo de futebol? O cenário não é novo, mas tive a oportunidade de presenciar a barbárie durante um torneio realizado num campo desportivo do Funchal. Se a maioria encara este tipo de desafio com desportivismo, tolerância e bom senso, alguns (muitos) vêem-nos como se estivessem perante uma arena de hienas que têm de vencer, custe o que custar. Das bancadas, os impropérios fazem-se ouvir em doses generosas, dirigidos aos adversários, ao árbitro e também aos próprios atletas que não rendam o que os progenitores acham que deviam. Pouco importa o convívio, os valores que o desporto deve propagar, o bom perder. Importa vencer, não importa o método usado para lá chegar. Promovem as entradas duras, as atitudes altivas e sobranceiras. O que leva gente crescida a propalar o ódio infantil, a disputa fratricida e a competição desbragada e sem regras? Saberão aqueles pais raivosos que os seus filhos farão daquele ‘modus operandi’ o seu modo de vida? E que isso terá certamente reflexo fora das quatro linhas, normalizando-se o uso da violência como meio natural para atingir um objectivo?

O que vi num torneio amigável é o espelho de uma parte da sociedade, frustrada, desequilibrada e impulsiva. A formação de crianças e jovens é determinante para um futuro de sucesso. Cabe também aos clubes promoverem hábitos de convivência saudável e dizerem de forma muito clara aos adultos que acompanham os meninos, que comportamentos daquela índole não são admitidos na prática desportiva.