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Impacto da vaga na China só calculado através do excesso de mortalidade

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Foto EPA

O impacto causado pela vaga de casos de covid-19 que recentemente 'engoliu' a China só será entendido quando forem publicados dados sobre o excesso de mortalidade este inverno, disse hoje à Lusa o epidemiologista Benjamin Cowling.

"Quando os dados sobre a mortalidade durante este inverno estiverem disponíveis na China vai haver um grande número de mortes em excesso que vai sobressair", previu o epidemiologista e estatístico na área médica, da Universidade de Hong Kong.

"Até então, não existem estimativas muito fiáveis", disse. "O número de mortes oficialmente reportado também não tem grande significado".

Cowling enfatizou ainda o "impacto indireto", causado pela sobrelotação das urgências, que diminuiu a capacidade de resposta para outras condições, como derrames e problemas em pacientes com doenças crónicas.

Após uma primeira vaga de infecções, que, segundo um estudo da Universidade de Pequim, atingiu no espaço de um mês cerca de 900 milhões de pessoas na China, ou 64% da população do país, o epidemiologista prevê que a sociedade chinesa tem agora uma imunidade robusta contra infecções, que "não será duradoura", mas que será "persistente por muito mais tempo" contra doença grave.

O impacto da segunda vaga, que poderá acontecer no verão, "não será tão grande quanto o da primeira", acrescentou. "As vagas futuras terão algum impacto, mas não ao mesmo nível".

O epidemiologista observou que, "olhando para o que aconteceu em outros países, uma próxima vaga poderá ocorrer dentro de quatro a seis meses".

"Em países grandes, talvez haja menos sincronicidade do que em países menores, devido às diferenças geográficas ou climáticas", indicou.

Em dezembro passado, a China levantou, subitamente, as medidas altamente restritivas que vigoraram no país, ao longo dos últimos três anos, no âmbito da política de 'zero casos' de covid-19, que incluiu o bloqueio de cidades, durante semanas ou meses, a realização com uma frequência quase diária de testes obrigatórios de ácido nucleico ou o encerramento das fronteiras.

O fim daquela política suscitou uma vaga de infeções que se espalhou a um ritmo "sem precedentes" desde o início da pandemia, observou Cowling, à medida que o novo coronavírus encontrou uma população sem qualquer imunidade natural, fruto da aplicação das medidas que durante três anos suprimiram implacavelmente qualquer surto.

"A China foi o único lugar que enfrentou a primeira grande vaga de infeções sem adotar qualquer medida para abrandá-la", frisou o epidemiologista.

Com base nos dados de Hong Kong, que enfrentou a primeira grande vaga de infeções em março de 2022, Benjamin Cowling disse que o esgotamento da capacidade hospitalar suscitada pela reabertura repentina, sem estratégias de mitigação, aumentou em três vezes a taxa de letalidade da doença.

"Isto significa que alguém que contraiu covid-19 durante o pico de infeções tem três vezes mais probabilidades de morrer do que quem ficou infetado durante outro período", descreveu. "Este é o principal motivo pelo qual se deve abrandar a curva com medidas de saúde pública, como distanciamento social", explicou.

O súbito fim da política de 'zero casos' deixou famílias a lutar pela sobrevivência dos membros mais idosos, segundo contaram à agência Lusa residentes em diferentes cidades da China, à medida que uma vaga de infeções inundou os hospitais e crematórios do país.

"Na China, surpreendentemente, não parece ter havido qualquer tentativa para abrandar a curva", observou Cowling. "Portanto, suspeito que também tenha havido algum grau de aumento na mortalidade por causa do grande número de pessoas que foram infetadas ao mesmo tempo", descreveu.

Os hospitais chineses registaram 83.150 mortes causadas por infeção pela covid-19, entre 08 de dezembro, altura em que a China começou a desmantelar a estratégia 'zero covid', e 09 de fevereiro, segundo dados divulgados esta semana pelo Centro de Controlo de Doenças (CDC) do país asiático.