RTP-Madeira

Mesmo que uma pessoa não queira se aborrecer, aborrece-se, e a sério! No passado sábado, dia 16-07, por acidente vi o Telejornal Madeira.

Quando digo, por acidente, foi mesmo, por acidente! É porque não costumo, nem faço questão de consumir o dito Telejornal. Quando um programa tem o dever de informar, alertar, denunciar, falar de assuntos que realmente nos interessa. Denunciar compadrios, falar do galopante custo de vida, dos preços exorbitantes dos combustíveis, das acrobacias das autoridades, especialmente do poder político. Que mandam a seu belo prazer na nossa vida, com discursos ocos de verdade, de ideias, para realmente solucionar os problemas que nos afligem. Ao contrário de tudo isto, e porque é verão, fica toda a gente, ainda mais anestesiada, consumindo tudo o que é festas e arraiais, o antídoto perfeito para alimentar um povo, que sobrevive a custo o dia a dia. E vê nestes fait divers o escape ideal para esquecer os problemas e espairecer as ideias. Mas a seguir à “ressaca”, a vida real, os problemas permanecem e agudizam-se cada vez mais.

Os jornalistas coitados, fazem o que lhes mandam! Dizem as notícias quase que a medo, notícias essas, que já foram mais que polidas e filtradas. Quem vê o Telejornal Madeira, parece que vivemos num paraíso, onde tudo é perfeito! Afinal temos o mais elevado índice de pobreza do País, e pouco se fala nisso. Numa população com cerca de 260 000 almas, há imensa gente a estender a mão para comer. Depois vêm os peditórios, onde mais uma vez o Zé Povinho é chamado à solidariedade. Para de seguida vir a Fátima Aveiro, se “gabar” que receberam 24 toneladas de alimentos!? A Solidariedade virou um negócio e bem lucrativo! Ganham as superfícies comercias, ganha o Governo, é mais Iva a entrar nos cofres. Perde o Zé Povinho! Perde e perde sempre! Porque dos parcos ordenados ainda contribui, para os que mais precisam. Descontamos dos nossos salários, impostos que são nossos, que depois acabam por ser derramados por outros “trilhos”, e usufruir deles que é bom, népia! Precisamos de consultas, exames e afins, do Hospital público, nada! O Serviço Regional de Saúde, simplesmente não funciona, tá doente! Principalmente porque os Srs Drs, consideram-se, os “Deuses do pedaço”! Não prestam serviço no hospital, as 7 horas que deveria ser obrigatório, fogem para as clínicas, porque aqui é bem mais rentável! E nada lhes acontece!

Em contrapartida anuncia-se todos os dias obras de milhões, algumas delas estéreis à nascença, de falta de capacidade para se autossustentarem e algumas delas de necessidade duvidosa. Depois ficam os elefantes brancos, como as piscinas de S. Jorge, a marina do Lugar de Baixo, que foi um autêntico cemitério de milhões, entre outras, e nada aconteceu! Ninguém foi criminalizado por lesar o bem comum e enterrar milhões num mar sem fundo!

É tudo isto e muito mais, que deveria ser dito e denunciado num Telejornal Madeira. Em vez disso, demora-se mais de 10 minutos, a falar da porcaria do Rally do Faial. Fala um, fala outro, fala piloto, fala navegador, fala piloto, fala navegador, uma série de vezes, só faltou falar o mecânico!

Fiquei seriamente com dúvidas se estava a ver o Telejornal Madeira, se estava a ver um programa dedicado ao Rally. Até liguei para a RTP Madeira, para confirmar. Diz o funcionário, do outro lado da linha, “sim é o Telejornal, que tá a dar, e sim estão a falar do Rally”! Deixei-lhe um recado para o diretor da RTP Madeira, para ter em atenção, os conteúdos, os tempos das notícias. Uma notícia, agora leva tempos, que “antigamente” não se assistia. “Antigamente” tempo em televisão era dinheiro! Agora não! É elementar que o tempo do Telejornal, precisa ser preenchido, mas por amor de Deus, com notícias realmente notícias!

Depois foi o espetáculo no Parque Santa Catarina, depois foi o senhor que pinta… ok, até pensei que estava assistir nesta altura, ao Passeio Público, ao Casa das artes!

E é neste marasmo que se encontra a Ilha da Madeira, onde a informação está à mão de semear, mas não acontece nada! Nas mesas de café tudo é dito, nas redes sociais, tudo é esmiuçado ao pormenor, sabemos onde estão as aldrabices, os que enriquecem da noite pró dia, mas na hora de agir, e reivindicar melhores condições de vida, ficamos acanhados!

Enquanto os que nos governam ganham ordenados chorudos, rigorosamente desproporcionais à competência verificada, para resolver os problemas de quem os elegeu. Põem o preço que querem e bem entendem em bens, produzidos pelos agricultores, pescadores, como se fossem eles os donos, daquilo que é produzido, e quem realmente produz, vê o seu trabalho cada vez mais, desvalorizado!

Foram eleitos para governar em prol do Povo e não em prol de meia dúzia, estão destruindo a Madeira, descaracterizando com obras loucas só para sustentar o lobby do betão.

Falam da Ilha como se fosse deles, propriedade privada, com uma arrogância e prepotência, e vêm nos Madeirenses seus vassalos! A política do “quero, mando e posso”!

Não podem nada, porque se o Povo acordar, “o Povo é quem mais ordena”!

Construções de luxo para emigrantes, estrangeiros endinheirados, e para o Zé Povinho, mais uma vez, nada!

Por este andar a Ilha da Madeira, já vai sendo, mas vai ser ainda mais, de estrangeiros que de Madeirenses!

RTP Madeira cumpram o vosso papel, sem medo nem receios de represálias!

E Madeirenses passemos das palavras aos atos! É a nossa Ilha, a nossa identidade que está a ser adulterada, sem dó nem piedade!

Lúcia Abreu