Análise

Os maus e o bom exemplo

Nenhuma boa acção de promoção vingará se o bom senso não prevalecer

1. O diagnóstico está feito e o prognóstico não é bom. O tecido empresarial está a sofrer como nunca com a crise pandémica. As empresas da restauração, por exemplo, enfrentam um futuro sombrio e, mesmo com todas as ajudas públicas, não é seguro que consigam manter-se. Com o previsível encerramento de lojas e restaurantes, com a diminuição drástica do número de turistas, não é difícil perceber que o objectivo número 1 dos nossos empresários é convencer a população local a investir, a comprar. O desafio não é fácil, porque, por via da famigerada pandemia as pessoas retraem-se e muitas optam por não gastar, mesmo que tenham dinheiro disponível.

Todos os concelhos da Região estão a sofrer, todos temem a escalada do desemprego e todos fazem pelo melhor para atrair a parca clientela que lhes permita manter-se à tona. É por isso contraproducente, para não dizer mesmo incrível, que alguns municípios continuem a cobrar tarifa de estacionamento na via pública, aos domingos e feriados. Se já é questionável que o façam aos sábados, é inadmissível que continuem a impor uma taxa, por mais irrisória que seja, quando os clientes de cá têm mais tempo para se deslocarem e gastarem dinheiro. Um exemplo: na última terça-feira, que foi feriado nacional, eram muito poucos os que circulavam pela vila da Calheta, a marina estava praticamente deserta, os restaurantes, vazios. Mesmo com muitos lugares vagos, por lá andava um diligente e cumpridor funcionário da autarquia a inspeccionar as viaturas. Quem prevaricasse, coima garantida. Será aceitável que perante o quadro económico desolador as câmaras municipais persistam na obtenção desta fonte de receita, mesmo que isso afugente visitantes com vontade de gastar? O incentivo e a ajuda ao debilitado comércio local não deveria ser mais importante do que o rendimento que o parquímetro dá? Quem aproveitou um feriado e foi à Calheta almoçar e comprar bolo-de-mel no engenho e foi multado não fica com vontade de regressar. Há gestos que falam por si. Nenhuma boa acção de promoção vingará se o bom senso não prevalecer.

2. Numa das edições do DIÁRIO da semana passada noticiámos que uma turista tinha furado o isolamento a que estava obrigada, depois de ter feito o teste de diagnóstico da covid-19 no aeroporto. Não esperou pelo resultado, foi passear e teve o azar de cair e magoar-se seriamente. O teste realizado deu positivo. Esta cidadã não foi nem será a última passageira, nacional ou estrangeira, a adoptar um comportamento de risco, lesivo para si e para a comunidade. Todos somos poucos para pressionar e convencer quem nos rodeia a cumprir com as regras sanitárias. Não pode haver desleixos nem facilitismos que provoquem contágios. A responsabilidade é de cada um, sem xenofobismos, nem complexos de espécie alguma.

3. Sobre Eduardo Lourenço já se disse muito, não tudo, que a obra sobrepõe-se à vida terrena. Só uma nota de carácter pessoal: entrevistei-o por duas vezes. Eu estava em Lisboa e ele em Vence, no Sul de França, onde vivia com a mulher. Não me recordo do motivo dos meus telefonemas, mas lembro-me muito bem da forma paciente, cordial e humilde como respondeu, com o seu peculiar sotaque beirão, a todas as minhas perguntas, algumas provavelmente ingénuas e primárias. Guardei sempre estes contactos com o proeminente pensador e ensaísta, como exemplos de grandeza e simplicidade (em doses iguais) que só os verdadeiros mestres conseguem ter. Como disse e bem Pacheco Pereira, Lourenço era o “homem do pensamento largo e passos pequeninos”.

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