A época da parva
Seria bom que houvesse mais coerência e respeito pela inteligência dos cidadãos
De há uns tempos a esta parte, vamos dando-nos conta do período conturbado que se aproxima, em termos políticos. As mudanças de figurino partidário provocado pelos resultados dos últimos actos eleitorais, porventura, terão tido impacto nos comportamentos dos agentes políticos. Julgava eu que eles pautavam os seus comportamentos e afirmações em função dos ideais e valores que o partido consagrava no seu estatuto, nomeadamente em termos de projecto de sociedade, nos seus mais relevantes aspectos como sejam no que diz respeito à liberdade, quer individual quer colectiva, economia colectivizada, intervencionada ou liberal, organização administrativa do território, forma de governação, etc etc.
Por sua vez, estes valores e ideais seriam aplicados aos programas políticos apresentados ao eleitorado. Em função dos órgãos a eleger, cada partido ou candidatura apresentaria ao eleitorado do seu círculo, os programas e acções que proporia desenvolver durante a vigência do seu mandato, no caso de ser eleito.
Desta forma, o programa eleitoral do candidato/eleito estaria enquadrado no projecto idealizado para a sociedade que, segundo o quadrante de cada partido/candidatura. No fundo, bem melhor do que eu, permitam-me que transcreva Fernando Pessoa: “Toda a teoria deve ser feita para poder ser posta em prática, e toda a prática deve obedecer a uma teoria. Só os espíritos superficiais desligam a teoria da prática, não olhando a que a teoria não é senão uma teoria da prática, e a prática não é senão a prática de uma teoria. Quem não sabe nada dum assunto, e consegue alguma coisa nele por sorte ou acaso, chama «teórico» a quem sabe mais, e, por igual acaso, consegue menos. Quem sabe, mas não sabe aplicar - isto é, quem afinal não sabe, porque não saber aplicar é uma maneira de não saber -, tem rancor a quem aplica por instinto, isto é, sem saber que realmente sabe. Mas, em ambos os casos, para o homem são de espírito e equilibrado de inteligência, há uma separação abusiva. Na vida superior a teoria e a prática completam-se. Foram feitas uma para a outra”.
Vem isto a propósito do que tenho vindo a assistir às diatribes com que muitos políticos têm tentado se afirmar junto da opinião pública, por caminhos enviesados. Concretizando, oiço, leio e tenho de concluir que, afinal, o cenário mudou e o discurso adaptou-se. As oposições (sim, porque agora temos cenários diferentes distribuídos pela região...) têm um discurso que, se hoje fossem o poder, fariam o melhor dos mundos, ao contrário dos actuais detentores do poder. Esquecem-se que lá andaram anos e anos e não desenvolveram ou implementaram essas mesmas acções tão “óbvias”. E os que, hoje, são o poder estão a fazer o melhor dos mundos que sempre defenderam... com as actuais condicionantes, mas que o comum dos cidadãos não entende...
Assim, cimentar um caminho ou cortar uma árvore inclinada sobre a estrada ou cujas raízes prejudicam a via pública será, segundo a oposição, um grave atentado ambiental. Se não cimentar o caminho ou cortar a árvore, será um grave atentado à segurança rodoviária e/ou à vida e património dos peões e dos condutores.
Faz-me lembrar uma mãe que, face às tão diferentes opções de vida dos filhos em relação à sua, dizia:
- Não nasceram tontos, mas estão ficando!
Seria bom para todos, eleitores, eleitos e candidatos, que houvesse mais coerência e respeito pela inteligência dos cidadãos. Se não, serão tiros no pé, com a abstenção a tornar-se o maior partido!