Um pouco de ordem, um pouco de silêncio

O pior era ficar ao sol, dentro daquelas roupas quentes que a minha mãe me impingia, tinha tanto medo do frio que quase parecia que vivíamos na Suécia ou na

01 Out 2017 / 02:00 H.

Eu sei que agora a moda é “sair da zona de conforto”. Oiço isso no ginásio entre a música alta, o entusiasmo dos outros e as pernas que me falham, mais a dor na omoplata direita, que é assim como que um sinal vermelho a gritar os anos todos que levo por aqui. E é quando penso que a “zona de conforto” é o melhor dos lugares, onde apetece ficar para sempre como um gato ao sol em cima do muro. Não sou de grandes aventuras e aprecio rotinas, aquilo de acordar mais ou menos à mesma hora, de dar um mergulho ao sábado, de seguir uma série na televisão ou de me sentar a escrever à tarde, em silêncio.

Gosto e zelo muito a “minha zona de conforto”, só a deixo por razões de força maior e o ginásio está nesse pacote de sacrifícios, a bem da boa aparência. Também sei que correm pelo Facebook aqueles vídeos que louvam muito o “eu interior”, mas, como disse, sou antiquada. Aprecio a rotina e sou vaidosa, não me lembro ter sido alguma vez diferente e sempre me confundiram as mudanças. Custam, desorientam e tornam-me ainda mais desastrada. Eu sou naturalmente desastrada, sou daquelas pessoas que confundem o vidro da montra com a porta, que escorregam e caem ou fazem comentários estranhos para quebrar os silêncios incómodos das conversas.

Ser tudo isto aos 40 e muitos é capaz de dar um quê de excêntrico e ser excêntrico aos 40 tem uma certa graça, mas, como disse, sou assim desde sempre e não teve piada. Por exemplo não teve piada quando mudei da escola do campo do Marítimo para a Cruz de Carvalho e, só numa semana, perdi o relógio e o guarda-chuva e tive de os ir resgatar ao conselho directivo, toda corada e cheia de vergonha. Depois a minha mãe entendeu que não estava para gastar dinheiro em dois almoços na cantina e obrigou-me a levar de casa, numa daquelas marmitas com tampa vermelha. E era terrível comer nos degraus do bloco 3, era como estar só no mundo. Os outros miúdos ou comiam na cantina ou iam à casa, eu bem via os pais a deixá-los à porta da escola.

Eu andava de autocarro e tinha de correr para a paragem para não perder o horário da uma e um quarto. O pior era ficar ao sol, dentro daquelas roupas quentes que a minha mãe me impingia, tinha tanto medo do frio que quase parecia que vivíamos na Suécia ou na Rússia.

As doenças, as gripes, era uma lengalenga que me obrigava a andar sempre com o guarda-chuva, com casacos de lã e camisolas interiores. E tinha de gerir o desconforto do calor e aquilo de andar de sala para sala, ir do Inglês para a Educação Visual, o que me dava logo dores de barriga de nervoso. Por falta de jeito, por medo da professora Maria do Céu e por me atrapalhar a espremer os tubos de guache. E por me faltar um pincel fino, a minha mãe comprou um médio para poupar.

As capas de argolas e os livros herdados do meu irmão tornavam o cenário ainda pior. Os professores perguntavam-me muitas vezes se era repetente – por causa do tamanho – e se os livros eram da Acção Escolar, o que não era boa fama, que me perdoassem todos os que não podiam comprar livros. Eu achava injusto ter corpo de 15 anos, calçar 38 e passar todos os dias pelo mesmo filme de mostrar o bilhete de identidade ao bilheteiro para provar que não tinha roubado o passe a ninguém. Como que a compor todo este desatino, ainda havia as aulas de música, que contavam para a nota e onde arriscava a primeira negativa da minha vida escolar.

Não conseguia evitar os desastres que se sucediam uns atrás dos outros e que me faziam lançar olhares de inveja às miúdas a quem tudo parecia correr bem, que não faziam borrões nos desenhos, tocavam o Hino da Alegria na flauta e passavam a limpo os cadernos, com sublinhados a vermelho e a caneta verde. E eu só queria encontrar uma “zona de conforto”, onde pudesse sossegar, onde pudesse sentir que a realidade não me fugia das mãos. A “zona de conforto” tem má fama, mas desde o 1.º do ciclo preparatório que sei que dá jeito. Dá jeito acordar à mesma hora, dar um mergulho ao sábado e ter silêncio para escrever.

Marta Caires

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