Exposição de automóveis no Museu dos Coches é “altamente imprópria”

Lisboa /
26 Mai 2017 / 04:00 H.

O museólogo Luís Raposo, presidente do Conselho Internacional de Museus - ICOM Europa, considerou hoje “altamente imprópria” a apresentação de automóveis junto de viaturas históricas, numa exposição comercial no Museu Nacional dos Coches, em Lisboa.

“É altamente impróprio a exposição de automóveis lado a lado com tesouros nacionais num museu”, comentou o responsável do ICOM, contactado pela agência Lusa.

O Museu dos Coches apresenta, entre hoje e domingo, a VExpo 2017 -- Salão Internacional do Veículo Elétrico, Híbrido e da Mobilidade Inteligente, que colocou automóveis no interior da exposição permanente da instituição.

A exposição suscitou polémica quando foi partilhada na rede social Facebook, pela jornalista Paula Moura Pinheiro, numa visita ao Museu dos Coches, que reabriu ao público no sábado com a nova museografia instalada.

Luís Raposo, presidente do ICOM-Europa, a maior organização internacional do setor dos museus, está totalmente “contra a mistura de marcas comerciais e venda de produtos comerciais no interior de exposições com peças dos museus”.

“Existe uma lei que autoriza estes eventos em museus e monumentos, mas há limites que não deveriam ser transpostos, pois provoca uma contaminação. Estas misturas agridem a dignidade do património”, sustentou o museólogo.

Luís Raposo diz não ter nada contra estes eventos comerciais em locais patrimoniais, “desde que sejam realizados em lugares próprios, no exterior do museu ou em salas reservadas, separadas da exposição das peças”.

Disse ainda que a decisão final nestes casos, cabe à Direção-geral do Património Cultural (DGPC), “pois os diretores dos museus têm perdido autonomia”.

“Estas situações mostram que se continua a navegar sem horizonte, e falta uma verdadeira política museológica”, sustentou.

No sítio ‘online’ do Museu dos Coches, o evento está anunciado para decorrer entre hoje e 28 de maio, domingo, “com o objetivo de colocar a mobilidade sustentada na ordem do dia”, segundo a informação colocada no portal.

De acordo com o Regulamento de Utilização de Espaços nos serviços dependentes da DGPC, aprovado no despacho n.º 8356/2014, é possível realizar nestes espaços outras atividades, além das visitas habituais, desde que “compatíveis com os seus valores histórico/patrimoniais”.

O documento indica ainda que compete à direção da DGPC decidir, após parecer dos serviços dependentes, “da oportunidade e interesse da cedência, bem como das respetivas condições a aplicar”, que se reserva o direito de não autorizar o aluguer ou a cedência de espaços.

“Todas as atividades e eventos a desenvolver terão de respeitar o posicionamento associado ao prestígio histórico e cultural do espaço cedido”, segundo um dos artigos do regulamento que desde logo rejeita “os pedidos de caráter político ou sindical”.

“Serão, ainda, rejeitados os pedidos que colidam com a dignidade dos monumentos, museus e palácios ou que perturbem o acesso e circuito de visitantes bem como as atividades planeadas ou já em curso”, determina outro artigo.

Segundo o regulamento, é obrigatória a assinatura de um termo de responsabilidade civil, por perdas e danos, de montante a determinar, que corresponda à responsabilidade por todos os danos ou prejuízos que vierem a ser causados no local, em consequência da cedência.

Nos espaços cuja utilização seja autorizada, podem decorrer eventos de caráter social, académico, científico, cultural, comercial, empresarial, turístico ou promocional.

No caso do Museu dos Coches, um evento privado pode reverter em 2.500 a 10 mil euros para a DGPC, que centraliza estas receitas de monumentos, museus e palácios.

No último fim de semana, em que o edifício Museu Nacional dos Coches, inaugurado em 2015, estreou a nova museografia e abriu gratuitamente ao público, este foi visitado por cerca de 10 mil pessoas.

Encerrado desde 26 de abril para montagem da museografia, o Museu dos Coches reúne uma coleção de viaturas de gala e de passeio do século XVII ao século XIX, na sua maioria provenientes dos bens da coroa ou de propriedade particular da Casa Real portuguesa.

Entre as peças encontra-se o “Coche dos Oceanos”, que fez parte, em 1716, da embaixada enviada por D. João V ao papa Clemente XI.

Este equipamento cultural é composto por dois edifícios com quatro pisos, duas salas de exposição permanente, uma sala de exposições temporárias, auditório, serviço educativo, um laboratório, oficinas, zonas técnicas e administrativas.

Ocupando 15.177 metros quadrados nos terrenos das antigas Oficinas Gerais do Exército, o projeto foi concebido em consórcio com os ateliês MMBB Arquitetos, do Brasil, assinado pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha (Prémio Pritzker 2006) Bak Gordon Arquitetos e Nuno Sampaio Arquitetos, ambos de Portugal.

A agência Lusa contactou a DGPC, a diretora do Museu dos Coches e o Ministério da Cultura, e aguarda respostas sobre as condições de realização da exposição comercial.

Outras Notícias