Entre o céu e a terra
Há motivos para celebrar o crescimento, mas razões para não se deixar deslumbrar
Durante alguns minutos, a Madeira, nem sempre de vistas curtas, parou e olhou para o céu. Muitos subiram às serras, procuraram lugares com melhor visibilidade, interromperam rotinas, recorreram aos recomendados óculos especiais e, por uma vez, focaram-se exactamente na mesma coisa.
O eclipse solar teve esse poder raro de abrandar ritmos frenéticos e impor pausa apreciável a quem diz não ter tempo. E talvez seja esse o melhor ponto de partida para olhar para a semana que agora termina. Porque, passado o eclipse, é tempo de voltar a pôr os pés no chão.
As notícias destes dias obrigam-nos a olhar para muito daquilo que está ao nosso nível, para as contas, os atrasos, os preços, as escolhas e, sobretudo, para as contradições de uma Região que cresce, mas nem sempre à mesma velocidade.
A realidade não entrou em eclipse, mesmo que, por algumas horas, a paisagem tenha dado lugar a uma espécie de palco colectivo. Pelo contrário, mostrou uma Madeira agitada, capaz de continuar a atrair visitantes, investimento, eventos e atenção. Um dinamismo que só não foi maior porque o príncipe saudita cancelou uma visita mantida em segredo até ao dia em que a confidencialidade aterrou no aeroporto e só não viu quem não quis. Mesmo assim, o sinal gerou valor acrescentado.
Há uma Região viva, procurada e que acontece. Mas há também uma outra, porventura menos fotogénica, mas que apareceu nas notícias. Aquela onde os salários sobem para 1.748 euros, mas perdem para a inflação e continuam 87 euros abaixo da média nacional. Onde os serviços ficaram 7% mais caros. Onde viajar entre o Funchal e Lisboa já chegou a custar mais 34% do que há um ano.
Ou seja, a economia pode estar a crescer há 62 meses consecutivos, mas tamanho registo não significa automaticamente que a vida esteja a ficar globalmente mais barata ou mais fácil para as gentes lesadas pelas descontinuidades territoriais e pelo não alinhamento político.
E depois há a Madeira das obras que demoram. A lagoa do Palheiro Ferreiro devia estar recuperada em 2024. Estamos em 2026 e a empreitada agora lançada representa um custo acrescido de 40%.
Há a Madeira da Escola de Hotelaria, com quase oito milhões de euros de despesa desde o regresso à esfera pública, em 2023, para quatro milhões de receitas até 2025.
Há a Madeira da fusão das sociedades públicas, que avança até ao final do ano sem que se saiba ainda, com clareza, quanto custa o que vai ser fundido, quanto se espera poupar ou quem vai mandar na nova estrutura.
E há a Madeira onde o segundo helicóptero continua sem data.
Crescer não é apenas receber mais turistas, ter mais passageiros nos portos e ter salários nominais mais altos. Não é apenas inaugurar, anunciar ou lançar empreitadas. Também é conseguir responder, planear antes de remediar, saber quanto custa antes de decidir, cumprir prazos, dar explicações e garantir que o crescimento económico se transforma em qualidade de vida.
A Região está em alta, mas sob pressão.
O eclipse mostrou que, quando existe um acontecimento extraordinário, as pessoas deslocam-se, concentram-se, consomem, fotografam, partilham.
O fenómeno torna-se economia.
A Madeira conhece bem essa lógica. Mas há futuro depois do extraordinário, depois de os turistas regressarem a casa, de os arraiais e concertos terminarem e de o céu voltar a ficar normal.
O que fica é a Região tal como ela é.
Uma Região capaz de tirar os óculos para voltar a olhar em frente. Que tem motivos óbvios para celebrar o crescimento, mas também razões suficientes para com este feito não se deslumbrar.
Durante alguns minutos, o eclipse fez-nos olhar para o céu.
Agora é preciso descer à terra.
Até porque os fenómenos raros conseguem suspender a rotina, mas são as escolhas quotidianas que determinam o futuro colectivo.