Virados para o mar

Eu sou há muito um defensor acérrimo de tudo o que nos tem para oferecer. De uma forte estratégia e de uma visão clara para o que podemos retirar da água que temos à nossa volta

23 Jan 2020 / 02:00 H.

Não temos outra hipótese. Para onde quer que olhemos, estaremos sempre virados para o mar. Somos uma ilha e como tal rodeados de água, o que nos impõe limitações mas também nos abre um vasto leque de oportunidades e soluções. Essa razão a juntar a tantas outras, como por exemplo, o real aumento do nível da água no nosso Planeta Terra, leva-nos a procurar caminhos que tornem a nossa Região sustentável e próspera no presente mas também e sobretudo no futuro.E não há como preparar o amanhã sem começar hoje. É do senso comum o conhecimento de que este mar que nos rodeia e tantas vezes nos fascina continua por explorar, podendo e devendo ser reflexo da nossa preocupação mas também no razão primeira para com arte e engenho se tornar fator decisivo no crescimento das civilizações bem como na própria sustentabilidade das mesmas.

Basta fazermos uma pequena pesquisa no Google para percebermos o que está a ser feito nesta matéria um pouco por todo o Mundo. Na Malásia desenham-se projectos que reutilizem as plataformas petrolíferas abandonadas tornando-as empreendimentos turísticos e mini-cidades. Na Holanda começam a desenvolver-se as primeiras plataformas agrícolas e pecuárias que possam aproveitar esse espaço para o desenvolvimento de uma série de produtos como é disso exemplo a primeira vacaria flutuante que prevê uma infra-estrutura totalmente auto-suficiente, que vai permitir a produção diária de cerca de 1.500 litros de leite por dia que será pasteurizado e processado em iogurte na fábrica de lacticínios que ficará situada por baixo do andar onde as vacas comem e dormem.Inclui ainda um laboratório de alta tecnologia para fazer investigação no âmbito da produção de alimentos e da gestão de resíduos. Os animais vão poder caminhar livremente pelo espaço da plataforma e inclusive poderão até sair para um pasto verdadeiro em terra situado mesmo ao lado. Terá árvores e utilizará energia solar e armazenamento de água para reciclagem.

Mas não precisamos de ir tão longe. Mesmo de Lisboa chegou-nos no fim do ano passado a apresentação de um mega projecto que envolve a Câmara Municipal e que pretende revitalizar toda a zona ribeirinha assentando os seus objectivos na rentabilização das actividades marítimo-turísticas, o transporte público e a criação de espaços de lazer e entretenimento. Acho que esta é a altura para também a Madeira se virar para toda a economia do mar. Reabilitar património e desenvolver estratégias para uma maior rentabilização de um bem que nos abraça. Se somos procurados pela maravilhosa Natureza e se abandonámos a ideia de nos vendermos como destino de praia isso não significa que não sejamos um destino do mar. Nem poderá ser de outra forma.

Para analisarmos e construirmos uma Economia Azul sólida e sustentável, devemos no entanto desenhar um modelo de desenvolvimento económico. Estruturar e definir a política e a estratégia a seguir em assuntos do mar. Que passará desde cedo pela educação mas também num amplo entendimento entre o sector público e o privado. Desburocratizar o sistema de acesso, dando ao Governo Regional o natural papel central de regulador e de apoio mas permitindo ao mercado e às pessoas a responsabilização no sentido de desenvolver conhecimento e de aproveitar as oportunidades. E há tanto por fazer nesta área...partindo das premissas de uma economia colaborativa, ecológica e sustentável. Da energia aos desportos existe um mundo de soluções. Da caça submarina ao surf, do mergulho aos passeios de barco mas acima de tudo um processo que nos permita promover lá fora esta nossa mais valia tornando a oferta mais completa, sólida e diversificada. Eu sou há muito um defensor acérrimo de tudo o que nos tem para oferecer. De uma forte estratégia e de uma visão clara para o que podemos retirar da água que temos à nossa volta. Seja em plataformas na projecção do nosso espaço ou no apoio à criação de negócios relacionados com o lazer e as actividades marítimas. Aproveitar o que temos à nossa disposição e educarmos para o desenvolvimento de uma economia azul cheia de benefícios para a comunidade. Rentabilizar o que é nosso e aproveitar para crescer num turismo em que a nossa oferta continua ainda a ser escassa e limitada. Dar oportunidade a start-ups de todo o Mundo para que se instalem nesta vertente. Discutir o assunto e colocá-lo na ordem do dia. Apostar no mar é apostar num futuro melhor.

José Paulo do Carmo