Regressar aos livros

É importante perceber que não nos podemos continuar a afastar da leitura e dos livros

08 Ago 2019 / 02:00 H.

Uma passagem quase distraída pela Livraria da Travessa, no Príncipe Real, e uma sugestão incisiva, quase imposta, proporcionaram-me um encontro acidental com a escrita de Afonso Cruz, que com “O Princípio de Karenina” me fez, depois, finalmente, encontrar tempo para retomar as melhores rotinas de leitura, num livro de capítulos curtos, com uma grande riqueza de palavras e de pensamentos profundos, de vivências, de influências, de hesitações, de desejos e de angústias, de dependências e receios, num mundo imperfeito de encontros e desencontros no qual podemos acabar por ser reféns das circunstâncias do tempo desencontrado.

Não pretendo revelar aqui todos os segredos deste encontro incidental e quase acidental com o livro e com o autor, até porque cada um os interpretaria à sua maneira - essa é, aliás, a grande riqueza da escrita, e um dos maiores desafios do escritor está precisamente na liberdade que dá ao leitor de caminhar para além dessa escrita -, mas não posso deixar de partilhar algumas reflexões que provocou em mim, porque só é verdadeiramente nosso aquilo que partilhamos.

Curiosamente, o livro acompanhou-me nas minhas sucessivas viagens apressadas de verão para o Porto Santo, neste mar sereno até uma ilha de gente verdadeira e de areia sagrada, onde os meus filhos procuravam e disputavam conchas. Foi precisamente no balanço de uma dessas colectas de conchas – numa disputa mediada e sempre bem resolvida pelo espírito conciliatório e pela sábia justiça materna da avó, a minha mãe, que repunha algum equilíbrio nas contas desequilibradas que se arrumavam naquela pequena caixinha de madeira – que o livro me levou para uma reflexão quase óbvia, mas de uma riqueza avassaladora na seguinte passagem: “O apanhador de conchas, o rapaz tímido e coxo, começava a agarrar bocados de vida para que fizessem parte dele, e, mais importante ainda, a aprender um gesto fundamental: o colecionador de conchas tem de baixar-se para as apanhar. O ato de nos baixarmos já é em si uma vitória. É com a humildade do gesto e do ego perante o mundo que o podemos abraçar. Só quem está disposto a baixar-se apanha conchas”.

Num tempo de gente que corre atrás de tudo e de quase nada, num tempo em que as crianças se afundam em realidades virtuais e tecnologias primárias, num tempo sem tempo para o tempo, é importante perceber que não nos podemos continuar a afastar da leitura e dos livros, das vivências e da reflexão que nos repõem algum equilíbrio, que nos disciplinam, que nos organizam e nos fazem respirar um pouco mais devagar num mundo de imperfeições, enquanto ensinamos os nossos filhos a arte de “agarrar bocados de vida” e a partilhar, enquanto colecionamos gestos de humildade sobre os quais construímos a nossa caminhada no centro de tudo e no meio do nada.

Brício Martins de Araújo