Deprimidos em tão pouco tempo

Quem não pode com a carga a que se sujeitou tende a culpar a ‘molhelha’

19 Jan 2020 / 02:00 H.

O que fez o 13.º governo regional em 100 dias? Menos do que era exigido porque optou por concentrar-se no domínio do dispensável que só satisfaz alguns interesses. Ou seja, fez pouco e nem sempre bem, embora ainda vá a tempo de escolher um rumo colectivo, focado num serviço permanente à população, de forma altruísta e sincera, sem chantagens, nem alucinações.

Fez por cumprir um acordo de coligação. A custo é certo, com sinais que confirmam discordâncias que desgastam e por vezes “humilham”, embora atenuados pelo facto da oposição ter, nuns casos, hibernado, e noutros, optado por estratégias de resultados imprevisíveis.

Fez pela vida e dos seus. Mesmo que o Orçamento só seja aprovado esta semana, o dinheiro que não abunda para tirar a Saúde do coma ou para catapultar a investigação científica foi sendo derramado por uma clientela ávida de tachos, de notoriedade e de regalias que sustentam caprichos.

Fez discursos, alguns dos quais repetitivos - em que imperam teses imprecisas sobra a mais baixa fiscalidade do País e a sistemática actualização do número de meses em que a economia regional cresce, sem que se note - e de outros sem rasgo e criatividade.

Fez por emendar a mão, para calar Bruxelas, no caso do CINM, ou contentar Lisboa, no caso da ordem dada aos deputados do PSD que se abstiveram na votação do Orçamento do Estado.

Fez excursões pela ilha. Este é um governo dado a visitas, às quais dá o nome pomposo de ‘roteiros’, como o da Economia, o que deixa as empresas da ilha à beira de um ataque de nervos. O número de vezes que os membros do executivo se fazem convidar pelos privados é tal que deixam corados os cobradores de impostos ou os carteiros.

Fez da Placa Central um campo de batalha com a Câmara do Funchal, do reforço das verbas para a Associação de Promoção uma bandeira e das questões da mobilidade aérea e marítima um drama. E se se safou na componente festiva, por via administrativa, ainda não conseguiu arranjar um director executivo para AP Madeira, nem rever o modelo de subsídio de mobilidade, nem atrair a terceira companhia para a rota de Lisboa, nem estancar as quebras no Turismo.

Fez da Quinta Vigia um salão de festas e produziu simpatias, promessas quase todas por concretizar, com maior ou menor alcance, como a que revelamos na semana passada e que visa apoiar jovens a comprar ou arrendar casa. Um programa criado para suprir carências habitacionais dos agregados com baixos rendimentos e que vai abranger duas mil pessoas, sendo que o incentivo pode chegar aos 225 euros por mês.

Na próxima quarta-feira apresentaremos na nossa edição em papel e na plataforma digital dados susceptíveis de gerar apreciações a um executivo excessivamente preocupado com nomeações, quando o expediente devia estar focado nas soluções. Daí o desgaste que deprime.

Isto nem começou, embora alguns governantes denotem sentir quão cruel é o exercício do cargo. A solo ou em dueto, alguns confessam-se cansados, ora “agastados”, ora “sem pachorra”, mas sempre inclinados para liquidar terceiros. Em bom madeirense, quando alguns não podem com a carga a que se sujeitaram, não raras vezes “a culpa é da molhelha”.

Ricardo Miguel Oliveira