Jornalista venezuelana escreve livro sobre o sentimento de culpa de quem deixa o país

‘Cai a noite em Caracas’ retrata a vida de milhares de venezuelanos que estão submetidos a um processo de “enlouquecimento”

20 Jun 2019 / 15:12 H.

Karina Sainz Borgo, jornalista e escritora venezuelana acaba de publicar o livro ‘Cai a noite em Caracas’, onde conta a história de uma mulher que vai para lá dos seus limites para fugir da Venezuela, sendo depois atingida pela ‘culpa do sobrevivente’.

Segundo o Observador, que publicou ontem uma entrevista com a jornalista, o livro serviu para Karina Sainz Borgo “organizar os [seus] fantasmas” e para lidar com um sentimento que carrega nas costas desde que também ela própria saiu da Venezuela, em 2006: “A culpa do sobrevivente” que surge por se ter ido embora.

Sem nunca referir os nomes de Hugo Chávez ou de Nicolas Maduro, este livro passa-se na Venezuela contemporânea sem nomes de líderes porque “queria que este romance tivesse uma veia literária muito marcada”, revela ao Observador, salientando que evitou que esta história “naufragasse na actualidade e se afogasse nos detalhes jornalísticos”. A ideia era “emocionar”.

“E a Venezuela tem alguns elementos em comum com outros regimes totalitários: o poder excessivo, a presença constante de figuras como o Eterno Comandante ou os Filhos da Revolução [milícia armada pró-regime]. Isso permitiu-me colocar o romance num tom mais universal. Porque realmente a Adelaida Falcón [personagem principal] é só uma mulher que quer sobreviver”, conta. “Tiraram-lhe tudo, não tem nada. E o problema é que, depois de fazer tudo o que faz, sente a culpa do sobrevivente. Sente-se culpada por se ter ido embora. E esse para mim é o verdadeiro tema do livro. É a culpa do sobrevivente, que é uma coisa que houve muito no século XX europeu”, explica Karina Sainz Borgo que contou de maneira a que “qualquer leitor entendesse a angústia, mesmo que não saiba sequer onde fica a Venezuela”.

A jornalista recorda um lugar que já não existe. “A Venezuela dos anos 40 recebeu muitas pessoas de Itália, Espanha e Portugal que foram para lá e muitos não regressaram. Nunca olharam para trás, jamais! Porque criaram raízes lá. Ninguém quis voltar. Mas a contradição é que com os filhos e os netos dessa geração acontece o mesmo, mas no sentido inverso”, salienta a escritora que também teve de sair da Venezuela, revelando que o livro é sobre “desenraizamento, sobre medo, sobre fugir e sobre sobreviver. Eu pergunto-me: isto não é o que se passa agora com os refugiados sírios? É que ninguém compreende muito bem o que se está a passar. Mas é um tema que, tal como o venezuelano, ninguém sabe muito bem o que se está a passar. É um tema da região. E eu queria escrever um romance político, mas não politizado, não é de denúncia, porque se fosse assim fazia uma reportagem”, refere.

Longe de ser um livro autobiográfico, refere, no entanto que a vida que deu à personagem principal da história, Adelaida Falcón, vem da sensação da culpa de se ter ido embora da Venezuela em 2006, sendo a “memória de alguém que viu um país apagar-se e desfazer-se em bocados”.

Recorda que foi preciso fazer muita pesquisa para escrever este livro e que apesar deter deixado a Venezuela, a sua cabeça continuava lá. “Ao longo dos anos fui incorporando a minha espanholidade, não só porque o meu pai é espanhol mas também porque fui viver para Espanha. Comecei a entrar num processo em que me sentia cada vez menos venezuelana e cada vez mais espanhola. Isso deu-me uma lucidez que me permitiu ver os problemas de Caracas em perspetiva. Mas sempre estive em contacto com a Venezuela, sempre estive em contacto com ONGs, porque pedem-me sempre muitos artigos, muitas coisas. Tal como outros jornalistas da minha geração que estão na diáspora, nunca pude afastar-me do meu país. Mesmo que em termos emocionais fosse terrível falar dele, sempre o tive por perto”, descreve.

O livro retrata a sociedade venezuelana “especialmente matricêntrica, em que o peso emocional e familiar das mulheres é muito forte. Ao mesmo tempo, são o lado mais fraco da corda, que é por onde ela acaba por se partir. Ser homem na Venezuela contemporânea é um problema, mas ser mulher é uma tragédia. São mães que ficam sem os filhos, nas classes mais pobres são quase sempre mães solteiras... Cada dia há mais famílias deste tipo. Mas é uma sociedade muito matricêntrica, o papel feminino é muito, muito grande”.

Sobre a situação actual da Vanezuela, diz que “Guaidó não é Presidente, ele é presidente da assembleia e está mandatado a convocar eleições. A Nicolás Maduro só se pede que vá a eleições. E ele não o aceita. Por isso é um usurpador. E, além do facto de que nega uma crise humanitária, está a mandar todos os venezuelanos para a morte. Literalmente. Porque não aceita ajuda, não aceita medicamentos, não faz frente à crise energética”.

Acusa Maduro de não respeitar os deputados da assembleia que foram eleitos e tentou criar um mecanismo paralelo, uma assembleia constituinte para tirar-lhes a credibilidade. “Como é que alguém se pode organizar quando o Estado está sequestrado e não tem poderes públicos independentes?”, questiona, referindo que Guaidó “é a imagem de uma estrutura da oposição que está muito ferida e que tem muitas dificuldades para trabalhar porque está sempre a sofrer golpes de última hora. Resistir nestas condições é muito complicado.

Daí que a preocupação seja sobreviver, como o que se passou em Cuba de Fidel Castro e também na última União Soviética, antes da perestroika. “Mas o pensamento comunista converte-te num zombie. O Estado está olhar para ti, diz-te quando tens de comer, diz-te onde está a comida, diz-te que tens de ter uma cartilha... Por isso é que insisto tanto que neste romance se fala de como os sistemas totalitários apagam os indivíduos e os projectos pessoais. Porque ninguém pode escolher como é a sua vida se não puder sequer escolher onde é que vai conseguir pão”, situação considerada desumana que “envelhece e enlouquece”, considerando que a sociedade venezuelana “está submetida a um processo de enlouquecimento, de desumanização”.

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