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Partido de Lula tenta conquistar bastião do bolsonarismo a poucos quilómetros do Palácio do Planalto

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FOTO ANDRE BORGES/EPA

O Partido dos Trabalhadores (PT), de Lula da Silva, fez uma incursão no berço político da evangélica Michelle Bolsonaro, candidata ao Senado nas eleições de outubro, tentando conquistar os votos dos eleitores num bastião do bolsonarismo, o Distrito Federal (DF).

Carismática e com alta aprovação entre o público evangélico, a mulher do ex-presidente Jair Bolsonaro defende valores conservadores e lidera as principais sondagens de intenção de voto, na que é a sua primeira eleição.

Com 44 anos, Michelle nasceu em Ceilândia, uma cidade periférica a 30 quilómetros de Brasília, formada por migrantes do Nordeste brasileiro que construíram a capital federal, marcada pela desigualdade social e por ter a maior favela do Brasil.

Embora Brasília e as cidades que formam o DF estejam longe de decidir as eleições presidenciais no Brasil, a região é um reduto religioso do bolsonarismo, principalmente entre os evangélicos, segmento que tem maior simpatia pela família Bolsonaro.

A Lusa esteve em Ceilândia e ouviu eleitores evangélicos e católicos de esquerda sobre o que consideram os principais desafios do PT e do Presidente Lula para conquistar a maioria dos votos.

A professora de escola pública Iolanda Pereira Costa, de 48 anos, reconheceu que, nos últimos anos, o bolsonarismo foi mais eficiente do que a esquerda a conquistar o público evangélico.

"A esquerda precisa estar mais no contato com as pessoas e não ter um discurso tão elitizado, e muito acima daquilo que eles podem conquistar. Tem que mudar a linguagem, ter uma linguagem mais acessível. É preciso adotar o método de Jesus e simplificar a linguagem", avaliou.

Segundo as sondagens, o DF tem dado maioria das intenções de voto a Flávio Bolsonaro (Partido Liberal), principal adversário de Lula da Silva nestas eleições, sendo em que, em 2022, Jair Bolsonaro venceu o petista com 58,81% dos votos válidos na região.

Aos 63 anos, a feirante Rosete Oliveira Leite voltou a vestir a camisa da seleção brasileira, algo inimaginável há quatro anos, quando as cores verde e amarela ficaram associadas ao bolsonarismo: "Para mim é a cor do Brasil, é a bandeira do Brasil. Infelizmente, aquele outro lá (Jair Bolsonaro) quis roubar a nossa bandeira, dizendo que ela é dele e não do meu coração. Eu sou de esquerda, eu sou petista", contou.

Eleitora evangélica, Thiciana Maria Damasceno, 46 anos, sabe cantar do início ao fim o hino gospel da campanha de Lula, que narra a trajetória de superação do petista e das suas conquistas internacionais e nacionais.

Segundo disse, o estilo musical escolhido é uma sinalização clara do Presidente aos evangélicos, muito diferente do distanciamento de 2022.

"Acho super interessante, porque nós, cristãos, precisamos também ser ouvidos. Esse 'jingle' é muito lindo", declarou ao elogiar e se sentir representada com a presença do pastor Kleber Lucas nos comícios de Lula, completando que "ser cristão é não ter preconceitos, não ter barreiras".

Para ela, o principal desafio de Lula e da esquerda no Distrito Federal com os evangélicos passa por conhecer a realidade das pessoas, e citou o que chamou de "questão engessada": "Nem todo evangélico é bolsonarista ou de direita. Infelizmente, ainda temos pessoas que fazem da bíblia um instrumento de doutrinação, de dominação".

Quarta-feira, num encontro com pastores evangélicos, no Palácio do Planalto, Lula, que é católico, criticou o uso político da religião e afirmou que não fará campanha em igrejas por respeitar a fé das pessoas.

Também recordou que, quando criou o PT, precisou explicar o vermelho da bandeira e recorreu ao cristianismo para justificar a escolha.

"Eu utilizava o sangue de Cristo como exemplo do vermelho da minha bandeira", disse, acrescentando que tem barba porque "Jesus Cristo era barbudo".

Durante a sua primeira ação de campanha eleitoral em Ceilândia, na noite de quarta-feira, na Praça do Trabalhador, ataques a Michelle e à família Bolsonaro, e a importância dos dois votos ao cargo para senador, marcaram o evento.

Veio da primeira-dama, Rosângela da Silva, Janja, que tem participado nos comícios com o marido, o primeiro ataque a Michelle, a quem se referiu como "Bolsonara de Ceilândia".

"Tem uma bolsonara daqui de Ceilândia que vocês conhecem bem. Digam não aos Bolsonaros", declarou, lembrando que o eleitorado feminino é maioria no Brasil e que, por isso, decide o rumo do país.

"Quando eu olho para cada um de vocês, e principalmente para as mulheres de Ceilândia, eu vejo uma força imensa, a força que o Brasil precisa (...) para não voltar para trás, para não retroceder, para não voltar para as trevas que o governo da família Bolsonaro nos deixou", disse.

Janja cantou o hino gospel ao lado do pastor Kleber Lucas, sendo muito aplaudida pelo público, inclusive por Thiciana que entoou a canção abraçada ao marido e ao filho.

Nas eleições gerais de outubro, os brasileiros irão também escolher dois candidatos ao Senado, o que fez Lula, ao lado de duas candidatas de esquerda a este órgão, reiterar a importância dos dois votos.

"Temos duas candidatas de direita que não vou dizer o nome. Uma escolheu o irmão e a outra o filho de suplente", citou em referência a Michelle Bolsonaro e à atual deputada federal bolsonarista Bia Kicis, de 64 anos.

"Não podemos errar o voto. Não podemos", reiterou o petista que tinha também ao seu lado um candidato do PT a governador do Distrito Federal, que concorre contra a atual governadora bolsonarista Celina Leão.

No dia 04 de outubro, os brasileiros votam para escolher o Presidente, governadores, senadores e deputados.

As sondagens a mostram uma luta acirrada entre o atual Presidente brasileiro, Lula da Silva, e o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro.

Caso nenhum candidato consiga alcançar pelo menos 50% dos votos, os eleitores serão chamados novamente às urnas para uma segunda volta agendada para 25 de outubro.