Hospital desliga máquinas que mantêm vivo tetraplégico francês

20 Mai 2019 / 20:35 H.

O hospital universitário de Reims, França, iniciou hoje a suspensão dos cuidados que têm mantido vivo Vincent Lambert, um tetraplégico em estado vegetativo há 10 anos, decisão que desencadeou esta segunda-feira reações de diversos setores, da política à religião.

A suspensão dos cuidados foi autorizada em abril passado pelo Conselho de Estado - a mais alta autoridade administrativa -- e implica, segundo uma fonte médica, o desligar das máquinas que hidratam e alimentam Vincent Lambert, atualmente com 42 anos, e a aplicação de uma sedação “controlada, profunda e contínua” e de analgésicos “por precaução”.

Fontes médicas admitem que o processo, até à declaração do óbito, poderá prolongar-se por alguns dias ou até duas ou três semanas.

Vincent Lambert, antigo enfermeiro de psiquiatria que ficou tetraplégico em 2008 na sequência de um acidente rodoviário, tornou-se um símbolo do debate sobre a eutanásia em França e o centro de uma batalha jurídica, que dura há seis anos, entre elementos da sua própria família, nomeadamente entre a sua mulher (que concorda que as máquinas sejam desligadas) e os seus pais, católicos assumidos que defendem a manutenção do suporte de vida.

O Presidente francês, Emmanuel Macron, e o Papa Francisco constam entre as figuras e as instituições que reagiram, entretanto, ao facto de os médicos do hospital Sebastopol em Reims (norte de França) terem desligado, hoje de manhã, as máquinas de suporte de vida.

“A decisão de interromper os cuidados foi tomada depois de um diálogo permanente entre os seus médicos e a sua mulher, a sua tutora legal” e na “aplicação da nossa legislação que permite suspender os cuidados em casos de obstinação irracional”, referiu o chefe de Estado francês, na rede social Facebook.

Macron ressalvou, no entanto, não querer “imiscuir-se numa decisão de cuidados [médicos] e de Direito”.

Por sua vez, através do Twitter, o Papa Francisco apelou à proteção da vida “desde o início até ao fim natural”, mas sem mencionar o nome de Vincent Lambert.

“Vamos rezar por aqueles que vivem num estado grave de deficiência. Vamos sempre proteger a vida, o dom de Deus, desde o início ao fim natural. Não iremos ceder à cultura do descartável”, escreveu o pontífice numa mensagem publicada no Twitter, traduzida em várias línguas.

Posteriormente, o diretor do gabinete de imprensa da Santa Sé, Alessandro Gisotti, foi mais explícito, reeditando a mensagem e acrescentando “Vamos rezar por Vincent Lambert”.

“É uma tristeza, um absoluto escândalo, eles nem sequer puderam beijar o seu filho”, reagiu, em declarações à agência francesa France Presse (AFP), Jean Paillot, advogado dos pais de Vincent Lambert, que contestam a interrupção do suporte de vida.

Também hoje o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos fez saber que tinha recusado um novo pedido dos pais de Vincent Lambert, que solicitavam a suspensão da interrupção devido a “um novo elemento”.

“O tribunal indica que nenhum novo elemento que o fizesse adotar uma posição diferente lhe foi apresentado pelos requerentes”, referiu a instância.

A instância, com sede em Estrasburgo (França), recordou que, em 2015, já tinha deliberado que a cessação da alimentação e da hidratação do tetraplégico francês não constituía uma violação do princípio ao direito à vida, garantido pela Convenção Europeia dos Direitos do Homem.

Em 2011, os médicos que seguem este caso descartaram por completo qualquer possibilidade de melhorias no estado de Vincent Lambert e, em 2014, o seu estado passou a ser classificado como vegetativo.

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