Ao fim de três anos de mandato, Trump redefiniu o cargo de Presidente dos EUA

06 Nov 2019 / 09:55 H.

Bastaram três anos de mandato (que se cumprem sexta-feira) como Presidente dos EUA para Donald Trump redefinir as regras do cargo, com um estilo não convencional que alterou para sempre o papel da Casa Branca na política norte-americana.

“É muito mais fácil ser presidenciável”, disse Trump, durante um discurso perante uma plateia de apoiantes num comício de recandidatura, em outubro passado, no Texas, enquanto apertava o casaco (que ele tem sempre desapertado), fazia uma cara séria e colocava os braços rigidamente ao longo do corpo, ao mesmo tempo que iniciava um monótono e solene monólogo.

A multidão adorou a imitação do que Trump considera que é ser “presidenciável” e aplaudiu e riu com o ‘sektch’ de um Presidente que raras vezes ultrapassou a barreira dos 40% de aprovação do seu mandato, nas sondagens, mas que parece ter garantido o entusiasmo da sua base de apoio eleitoral, numa altura em que já angariou muitos milhões de dólares para a sua campanha de recandidatura pelo Partido Republicano que se transformou à sua imagem.

“Se eu fosse presidenciável, toda a gente sairia a correr deste pavilhão, entediada”, concluiu Trump, que muito cedo após a vitória eleitoral de 2016 apostou todas as suas fichas de jogo na tese de que os eleitores queriam uma outra forma de fazer política e de ver a realidade.

“Factos alternativos” foi a expressão usada por Kellyanne Conway, conselheira da Casa Branca, durante uma entrevista em janeiro de 2017, para defender o argumento falso do então secretário de Imprensa, Sean Spicer, segundo o qual o Presidente tinha tido um número recorde de pessoas a ver a sua cerimónia de tomada de posse, poucos dias antes.

A expressão entrou no léxico político, juntamente com a denúncia das “fake news” (notícias falsas) com que Trump caracteriza a cobertura do seu mandato por parte de alguns dos principais meios de comunicação.

Trump (que tinha ganhado visibilidade pública através da televisão) decidiu contornar as “fake news” com recurso à sua conta pessoal da rede social Twitter, produzindo mais de 11 mil entradas ao longo dos três anos de mandato.

De acordo com a base de dados da organização Fact Checker, nos primeiros 993 dias de mandato, em 09 de outubro, o Presidente dos EUA já tinha feito 13.435 declarações falsas ou enganosas (com períodos em que atingiu a impressionante média de 22 por dia).

A perceção da realidade de Donald Trump raras vezes coincide com a dos jornalistas ou dos seus adversários políticos (que ele muitas vezes agrupa numa mesma categoria), como acontece relativamente ao facto que está na base do inquérito para a sua destituição, anunciado em final de setembro pela líder da maioria democrata na Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi.

Trump é acusado de abuso de poder no exercício do cargo ao pressionar, numa conversa telefónica de final de julho passado, o Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskiy, a investigar a atividade junto de uma empresa ucraniana do filho de Joe Biden, ex-vice-Presidente dos EUA e seu atual adversário político.

O inquérito já foi aprovado no Congresso - onde vários depoimentos são comprometedores para a tese de Trump de que nada de errado foi dito no telefonema a Zelenskiy -- mas o resultado dos artigos de destituição deverá esbarrar contra a maioria Republicana no Senado, onde seriam precisos 2/3 dos votos para remover Trump do cargo.

Donald Trump, que foi eleito sob a suspeita de muitos dos dirigentes do setor moderado do Partido Republicano, conseguiu nestes três anos tomar conta da estrutura partidária e reforçar a sua posição junto da base de apoio eleitoral, o que lhe instiga confiança na rejeição do processo de ‘impeachment’.

Mas, ao mesmo tempo, Trump criou barreiras intransponíveis com o Partido Democrata, o que o obrigou a recorrer ao seu poder de veto ou ao direito executivo presidencial para forçar medidas que nunca conseguiram ter apoio bipartidário no Congresso.

A mais emblemática das medidas é a construção do muro na fronteira sul, que Trump prometeu fazer e obrigar o México a pagar, e que apenas tem alguns setores completados, com a maioria democrata no Congresso a recusar alocar os mais de seis mil milhões de euros de custo da obra.

Também o desmantelamento do Obamacare, o projeto de assistência média pública promovido por Barack Obama, continua a ser adiado, perante a dificuldade de definir um plano concreto alternativo e com a resistência de vários congressistas republicanos que sofrem a pressão dos seus constituintes para manter o atual modelo herdado da anterior presidência.

Mas Trump continua a usar o argumento da proteção de fronteiras como trunfo político nos seus comícios de reeleição, ao mesmo tempo que invoca os números da Economia para demonstrar o sucesso do seu ‘slogan’ de 2016 - “Tornar a América Grande Outra Vez” -- falando do mais baixo índice de desemprego e dos mais elevados índices das bolsas de valores (nestes tópicos, invocando números comprovados oficialmente).

A estabilidade económica não acompanha a instabilidade no quadro de pessoal da Casa Branca: em três anos de mandatos, Trump teve dois secretários de Estado, três secretários de Defesa, três procuradores-gerais e três chefes de gabinete, para apenas falar dos mais elevados postos do executivo.

Mas foi a demissão do diretor do FBI James Comei, em 2017, que provocou o primeiro cenário de possibilidade de inquérito de destituição, por configurar uma hipotética obstrução de justiça, na investigação à interferência do Governo russo nas eleições de 2016, apresentada em abril passado pelo procurador-especial Robert Mueller, que foi inconclusivo sobre o boicote da equipa de Trump nessa averiguação.

O Presidente acusou, mais uma vez, os Democratas (”que não fazem nada”) de tentarem prejudicar a sua governação, como os tinha acusado, em dezembro de 2018 de terem contribuído para o bloqueio do Governo, que durante mais de um mês paralisou grande parte dos serviços públicos.

Trump conseguiu já nomear dois juízes conservadores para o Supremo Tribunal de Justiça, um feito que os Democratas temem ser de efeitos prolongados (os mandatos são vitalícios), ao mesmo tempo que reforçou significativamente o orçamento de defesa (criticando os aliados da NATO por não reforçarem o seu contributo).

De resto, na área da política internacional, Trump tem sido tudo menos diplomático, hostilizando aliados -- com severas críticas aos dirigentes da União Europeia -- e sendo ambíguo relativamente a antigos inimigos: confessou a sua admiração pelo Presidente da Coreia do Norte, mas impôs sanções a este país por não respeitar um acordo de desnuclearização; elogiou e logo de seguida demonizou o Presidente russo; e disse gostar muito do Presidente chinês, apesar de manter com ele um diferendo comercial há mais de um ano e meio, que valeu já tarifas retaliatórias de muitos milhões de dólares.

Trump prometeu retirar o esforço militar de conflitos no Médio Oriente e, nos últimos meses, retirou as tropas do Afeganistão e da Síria (mesmo contra a comunidade internacional e o seu próprio partido, que o acusou de abandonar as milícias curdas que tanto contribuíram para um dos seus auto elogiados feitos, a derrota do grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico), mas tem reforçado a presença militar na zona do Golfo, para enfrentar o conflito com o Irão, depois de ter rasgado o acordo nuclear de 2015.

Alguns dos seus mais próximos assessores dizem que Trump sonha com o Prémio Nobel da Paz, mas que se lamenta por não lho darem por não ser suficientemente “presidenciável”, a qualidade que ele quer deixar de lado para tentar ser Presidente “pelo menos por mais quatro anos” (referindo-se à possibilidade de recusar o limite de dois mandatos).