Psicóloga fala ao DIÁRIO sobre luto parental

Leia na íntegra o artigo publicado na edição impressa de domingo

24 Jan 2020 / 16:00 H.

Na sequência do triste caso da menina de 8 anos que morreu na sala de triagem do Serviço de Urgência do Hospital Dr. Nélio Mendonça, no passado dia 12 de Janeiro, o DIÁRIO foi falar com uma psicóloga sobre luto parental. Um assunto que, pela sua dureza, permanece um “tabu” na nossa sociedade.

No artigo ‘As fases de uma dor crónica’, publicado na edição impressa de domingo do nosso matutino, Sara Ferraz abordou as fases do processo de luto, o impacto da perda ao nível pessoal, social e profissional, bem como o apoio que pode ser prestado neste tipo de situações.

O dnoticias.pt disponibiliza agora o artigo na íntegra.

“Um luto singular”

O luto faz parte da vida. Nascemos, crescemos e morremos. É este o ciclo que dita o senso comum e, por isso, quando morre uma criança dizemos que é uma morte ‘contranatura’, porque não segue a ordem natural da vida. É como se esse sentido colectivo da vida, o desígnio de continuidade que carregamos e as expectativas que projectamos para o futuro enquanto espécie humana se desfizessem.

Embora a perda de um ente querido seja sempre um processo difícil, que envolve sentimentos de tristeza e de mágoa, a verdade é que “a morte de um filho é um luto singular, extremamente doloroso e uma perda irreparável”.

O luto parental reflecte-se ao nível da própria experiência interna subjectiva, abala as estruturas familiares e tem um impacto profundo na vivência social dos pais enlutados.

Sara Ferraz faz questão de vincar que a morte de um filho trata-se da “perda de um ser que não é suposto partir” e, como tal, “não existe uma fórmula mágica, nem uma forma correcta de fazer o luto”.

A vivência do luto parental, nota, “depende de vários factores” (como a personalidade dos pais, a idade, a causa da morte, entre outros) e “pode passar por diversas fases”.

Com efeito, a Psicologia identifica quatro fases do processo de luto: a fase do entorpecimento ou choque, a fase da revolta/protesto e ansiedade, a fase tristeza profunda e desorganização emocional e, por fim, a aceitação.

Negação e revolta

Psicóloga fala ao DIÁRIO sobre luto parental

“A primeira fase, a chamada de fase do entorpecimento ou fase do choque, caracteriza-se pela negação da própria perda e confusão emocional”, explica a psicóloga.

“A função parental é a do cuidar, proteger, da responsabilidade e do amar e, nestes casos de morte de crianças, sobretudo de morte repentina, há sempre uma perda da própria identidade pessoal, porque os filhos acabam por ser uma continuidade da geração, da própria pessoa e das suas expectativas”, sustenta.

Por outro lado, este “sentimento de impotência e de incapacidade por parte dos pais, de desamparo, de tristeza e, logo no momento inicial, de raiva (que pode muitas vezes ser dirigida contra a instituição, por exemplo o Hospital, contra a sociedade ou contra Deus), pode demorar horas, dias, semanas, meses e podem mesmo nunca ultrapassar esta fase”, sublinha.

Quer isto dizer que, “tendencialmente, passamos da fase de negação para a fase da revolta, do protesto, da ansiedade”. No entanto, “há pessoas que ficam retidas só na primeira fase”, reforça a psicóloga.

Na segunda fase, a fase da revolta e da ansiedade, “são frequentes os sintomas somáticos, a dor física, as alterações do sono e um desejo de procurar e de encontrar a pessoa perdida. Há muitas vezes a necessidade obsessiva de relembrar a pessoa perdida, através dos sonhos ou dos cuidados obsessivos com tudo o que se refira ao filho, tendo muitas vezes dificuldade em destituir-se de tudo o que lhe pertencia”, aponta Sara Ferraz.

Impõe-se a questão: “A família deve desfazer-se ou não dos objectos dos objectos pertencentes à criança/ jovem?”

A terapeuta salienta que “o mais importante é respeitarmos a vontade da pessoa [da mãe ou do pai]” e “perceber que tipo de luto a pessoa está a passar”.

Observa ainda que nesta fase, “além da sintomatologia normativa, podem surgir alucinações, no sentido de ver e procurar noutras pessoas semelhanças com a pessoa amada, que traduz um desejo intenso de que esta regresse”. Mas tudo isto, frisa, “faz parte do processo”.

Embora alguns estudos refiram que o luto médio dos pais varia entre dois a cinco anos, a psicóloga reitera que “o desaparecimento físico de um filho é uma irreversibilidade e que importa transmitir à pessoa “não existe um tempo absoluto” para lidar com a perda.

Desorganização emocional e o papel da família

Psicóloga fala ao DIÁRIO sobre luto parental

À negação e à revolta subsequentes à perda de um filho pode suceder-se um sentimento de desorganização emocional, que está dependente do que acontece antes da morte, do próprio evento, do modo como a família se reorganiza e do tipo de apoios tem.

Sara Ferraz faz notar que “o luto afecta os pais, a família, os amigos e a sociedade” e, uma vez que “a sociedade não está preparada para lidar com estas situações, é como impusesse [aos pais] uma recuperação, que conduz muitas vezes ao isolamento social”.

Para que tal não aconteça, no seio das famílias “é fundamental haver automaticamente uma reorganização familiar e um reajustamento de papéis, porque houve a saída do papel de alguém”.

O importante é que exista “uma rede de suporte”, enfatiza a psicoterapeuta. Ou seja, “demonstrar afecto, através da presença, dos gestos e do contacto. E, por outro lado, respeitar os momentos de silêncio e de afastamento, mas manter a sua inteira disponibilidade e também não fingir que nada se passou”.

A psicóloga chama a atenção para o facto dos pais que sofreram uma perda recente sentirem-se culpabilizados ao ter de frequentar eventos sociais ou partilhar de momentos festivos familiares (por exemplo, o filho faleceu e passados seis meses têm de ir a uma primeira comunhão ou baptizado) e apela à compreensão dos amigos e familiares.

“É importante as pessoas perceberem que se os pais não forem é normal (...) É normal sentir tristeza, desânimo, raiva, ansiedade, é preciso permitir-se sofrer e é preciso os familiares e a sociedade permitirem que os pais o façam”, ressalva.

Os ‘outros’ filhos

Psicóloga fala ao DIÁRIO sobre luto parental

Um dos factores “dificultadores” deste processo luto é quando são pais com filhos únicos ou pais de idade avançada, pois coloca-se em causa o próprio instintivo da sobrevivência biológica. “O facto de ter outros filhos pode ser protector e auxiliar na recuperação, porque a função de pais mantém-se e, apesar de um filho ter falecido, existem outros filhos que também precisam de atenção”, fundamenta Sara Ferraz.

Em contrapartida, é preciso considerar que os ‘outros filhos’, que perderam um(a) irmã(o), também entram em processo de luto e “é importante à partida mostrarem-se disponíveis para estar com a criança/jovem, ouvi-la e responder às suas perguntas”. “Se os pais não tiverem disponibilidade é importante procurarem apoio. Podem ser outros familiares, não é obrigatório recorrer a um psicólogo”, salvaguarda a terapeuta.

O luto do pai ‘protector’

Um dos aspectos mais interessantes evidenciados pela psicóloga Sara Ferraz tem a ver com o luto paterno.

“O que eu notei, quer através da prática clínica quer da bibliografia, é que há diferenças entre o luto da mãe e o luto do pai. Acontece muitas vezes na minha experiência clínica, o pai acompanhar a esposa e depois abandonar a consulta”, relata a terapeuta.

A origem desta diferença reside, por um lado, na necessidade de reorganização familiar e reajustamento dos papéis, em que o pai/marido assume o papel de acompanhar a esposa para prestar-lhe apoio.

Por outro lado, devido às crenças culturais e ao papel imposto directa ou indirectamente pela nossa sociedade, o pai sente-se ‘obrigado’ a manter um papel de protector, de auxiliar, e prestar apoio à esposa e restantes familiares, quando ele próprio precisa de apoio.

“É importante perceber que o pai também precisa de apoio e que deve ser acompanhado individualmente”, sublinha a psicóloga. “Numa fase inicial é importante que os dois [pai e mãe] sejam acompanhados em conjunto e depois individualmente, para poder trabalhar e prestar o apoio necessário a cada um”, sustenta.

Em relação ao pai, refere ainda que “esta dificuldade acrescida em procurar apoio, pode conduzir mais depressa ao isolamento social e, consequentemente, a perturbações do comportamento que se podem traduzir no abuso de álcool ou de outro tipo de substâncias para lidar com a dor e com a ligação da perda emocional”.

O casal

Psicóloga fala ao DIÁRIO sobre luto parental

Com a morte de um filho a dinâmica do casal também pode sofrer alterações.

“Quando há lutos fortemente individualizados, pode existir uma desestruturação familiar e surgir o sentimento de desamparo, de solidão intensificada de ambas as partes e, algumas vezes, de raiva, com acusações ou agressões mútuas ou de uma das partes em relação a outra. Se isso acontece também vai dificultar e vai intensificar a fase de desorganização emocional e pode mesmo conduzir à separação do próprio casal, quando não se consegue reconciliar”, resume Sara Ferraz.

A sociedade e o trabalho

Recuperar as rotinas e voltar a trabalhar, também pode ser “factor protector”, nem que seja para os pais “poderem distrair-se da dor e focarem-se noutra tarefa (apesar de estar sempre presente, porque estão a elaborar a experiência subjectiva interna)”.

Tal como acontece no contexto familiar, “muitas vezes os colegas trabalho] não sabem o que dizer e afastam-se. É importante não se distanciar, dar apoio, mostrar a presença, através de palavras e de gestos”, insiste Sara Ferraz. Um simples “estou aqui se precisares”, pode ser exactamente o que a pessoa precisa de ouvir nesse momento de assimilação da dor.

A aceitação

A perda de um filho é um luto crónico que, como vimos, deixa marcas profundas em todos os campos (psicológico, familiar, social, profissional, afectivo) para o resto da vida, mas “é possível amenizar a dor”, garante Sara Ferraz.

A terapeuta alerta ainda que a medicação antidepressiva (cujo objectivo é diminuir os sentimentos de desânimo, de tristeza e a sintomatologia fisiológica) “pode dificultar o desenvolvimento do próprio processo de luto para as fases posteriores” e aconselha os pais enlutados a procurar outras vias para lidar com a dor.

A psicoterapia é uma das ferramentas que pode ajudar a elaborar a perda, mas não é o único caminho. “Há muitas vezes um refúgio na espiritualidade e na religião ou o recurso a grupos de entreajuda (em que os pais com lutos mais antigos podem auxiliar na transição da experiência)”, aponta.

“O luto é um processo gradual em que os pais enlutados vão tomando consciência da perda. A aceitação é quando encontram um novo sentido para a vida com a pessoa amada dentro deles.

Podem alterar os padrões de vida e descobrir um novo significado dedicando-se a causas sociais (...) O sofrimento permanece, mas não de forma tão intensa e destrutiva”, remata.