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Não aprendemos nada?!

No passado fim de semana, os alemães do estado federal da Saxónia-Anhalt, no leste da Alemanha, deram uma maioria expressiva ao partido de extrema-direita radical e neonazi AfD (Alternativa para a Alemanha). Daqui a duas semanas haverá novos atos eleitorais e, num deles, este partido de inspiração neonazi surge à frente nas pesquisas.

Sei que este crescimento de forças extremistas, totalitárias e inimigas da Democracia não é um fenómeno exclusivamente alemão. Está a acontecer em vários países da Europa e das Américas, alimentado pelo medo, pela insegurança, pela desilusão com a política e pela incapacidade das democracias em responder a problemas reais. Mas o que mais me perturba é que uma vitória como a do passado domingo aconteça precisamente na Alemanha, país onde o nazismo deixou uma das páginas mais negras da História e onde o Holocausto foi levado à escala industrial.

Parece, por vezes, que estamos a perder a memória. Como é possível esquecer a perseguição e o assassinato de milhões de pessoas, incluindo crianças, em campos de concentração, câmaras de gás e valas comuns, privadas até da dignidade de uma morte humana? Como é possível que o povo alemão, que viveu os horrores do nazismo, não tenha conseguido transmitir plenamente às novas gerações a barbárie e o terror que Hitler semeou pela Europa, escravizando e assassinando povos de países que conquistou pela força no auge do III Reich?

Dirá o leitor que esta é uma visão exagerada e que a AfD, na Alemanha, o Chega em Portugal, o Vox em Espanha, o Rassemblement National em França e o Reform no Reino Unido nada têm a ver com o nazismo ou com o fascismo. Puro engano. Não afirmo que sejam cópias históricas desses regimes, mas é impossível ignorar que muitos destes movimentos recuperam discursos, métodos e valores que lhes são familiares: a procura de bodes expiatórios, a demonização do estrangeiro, a intolerância perante a diferença, o culto da força, a desconfiança das instituições e o ataque aos direitos fundamentais.

A História ensina-nos que as democracias raramente morrem de um dia para o outro. Vão sendo corroídas quando o discurso de ódio se torna normal, quando a mentira passa por verdade e quando a indiferença substitui a memória.

É por isso que o perigo não está apenas na extrema-direita. Está também na nossa capacidade de nos habituarmos a ela. Quando deixamos de nos indignar, começamos a abrir-lhe a porta. E quando a Democracia já não é defendida, pode ser tarde demais para a recuperar.