Clube Naval do passado
O Clube Naval foi um dos locais mais marcantes da minha infância e adolescência.
Era um local de convívio, lazer, camaradagem mas também sítio de competição desportiva.
Começava-se a descer a escadaria longa para entrar na receção, que até tinha uma TV a que raramente assisti lá. E todos conheciam a história de quem tinha telefonado para a receção perguntando por figuras mediáticas para ir ao telefone. Exemplo: “Sr. Flash Gordon o favor de vir ao telefone”...
Conforme as tendências de qual o cais a usufruir. O cais grande era natural e tinha aquele caminho estreito que depois subia à porta de acesso ao bar. Quando o mar estava “mau” havia a hipótese de ficar molhado. O banheiro colocava veneno na parede de pedras contra as omnipresentes lagartixas. E quando o cais era pintado com a cal, tinha que se aguardar um pouco para secar. Depois ficava impecavelmente luminoso e branco.
Havia o senhor Banheiro Teixeira com o seu bigode.Era uma alegria quando de manhã, a maré estava alta pois era mais propício a mais mergulhos.
Lembro-me dos mergulhos “sádicos” para molhar as pessoas secas. A piscina natural foi mais usada na infância.A “travessa” (percurso entre cais pequeno e grande) era algo raro para nós mas que ouvíamos mais dos mais velhos que a executavam.
As “jacas”, as estrelas do mar, os ouriços eram os bicharocos que “ouviam-nos” nas nossas conversas.No verão, era comum conversas sobre as transferências do defeso, as músicas, os jogos de computador, os filmes que iam chegando e o ano escolar.No cais pequeno, depois do seu trilho, tinha a “ressaca” que era um local que era geomorfologicamente desafiante, mas que raramente frequentei. E, lembro-me de ver a senhora veterana inglesa depois das suas braçadas corajosas ao ilhéu do Gorgulho.
O Campo. Primeiro tínhamos o “campo” de baixo. Só com uma árvore (baliza) que era usado para treino/preparação, o problema é quando a bola ia parar ao mar…
Depois subíamos mais um nível pelas escadas, e aí estávamos no campo principal com seu ar natural, primário, remendado, mas sempre apetecível!O campo de futebol, com a sua “arquitetura”, um tubo, cano que atravessava a parte de cima e o folhedo tensíssimo por trás de uma baliza e os carros em cima estacionados quase a “cair” sobre o campo.No verão, havia muitos jogos e equipas. Recordo dezenas de pessoas à volta do campo.
Antes dos jogos e quando com falta de jogadores, jogava-se ao nosso jogo “Ponta a Ponta”. Mudava-se a 1, e ganhava-se a 2. “Brocas” de baliza a baliza, e não raras vezes os jogadores empoleiravam-se nas balizas defendendo-as.
Os jogos eram de 4 contra 4. 1 muda e 2 ganha, “valia tudo menos tirar olhos”, e as áreas em linha diagonal onde só a partir daí se podia marcar golo, exceto se fosse de cabeça. “Equipa a seguir!” era frase recorrente. Os jogadores com os seus jeitos pessoais, fintas e alcunhas. Houve jogos de grande rivalidade em jogos longos e transpirados.
Quem não se lembra do veterano futebolista espanhol Gilberto com a sua mítica frase “no intente la finta!”, segundo uma “lenda” ele uma vez marcou um golo de bicicleta…
Para nos refrescar, descíamos e íamos ao bebedouro beber água ao pé da “casota” onde estava a Dona Maria e os seus olhos azuis. Guardava os pertences e eventuais bolas para jogar.
O bar era o local onde íamos comprar os gelados “Olá”, a caixa de gelados era um prazer. Comíamos o Epá, Rol, Perna de pau, Feast... E tinha um empregado atarefado e rabugento.
O Clube perdeu muito do seu “carisma” depois na passagem do milénio. Depois das construções. Hoje são os filhos e netos dos protagonistas da altura que frequentam o clube.Porém foi um local de convívio com o mar, com os seus cheiros e cores, com o tempo se dá mais valor… Algo que aqueles que não são ilhéus raramente sabem o que é. É um local que marcou muita gente na Madeira, e felizmente a mim. Recordações que ficaram para sempre…
Rodrigo Costa