O 25 de Abril não aconteceu (verdadeiramente)

24 de abril de 1974: viviam-se tempos de extrema revolta com um estado que ditava leis a seu belo prazer. O povo trabalhava e era explorado como nunca e nem podia conviver na rua. Eram homens e mulheres completamente escravizados! Havia uma enorme vaga de imigração para o estrangeiro, de famílias que saíam de Portugal descontentes pelas poucas oportunidades que tinham de uma vida condigna.

As famílias além de viverem em pobreza e escassez, viviam sob o terror constante de ver os seus filhos, irmãos ou maridos mobilizados para combater em Angola, Moçambique ou Guiné-Bissau. Vivia-se um Luto coletivo: quase todas as comunidades do país somavam mortos, feridos ou jovens traumatizados pela guerra que já durava há 13 anos. Vigilância da PIDE. Havia uma desconfiança generalizada. As pessoas evitavam falar de política em cafés, transportes ou até no seio familiar, com medo de denúncias à polícia política.

Mas os homens deste povo não eram homens quaisquer: eram soldados. Toda a classe adulta destes homens tinha sido (obrigatoriamente) militar. Vários deles serviam além mar - ultramar - em guerras que só prejudicaram a imagem e a alma dos portugueses. A maior parte dos feridos não recebeu qualquer apoio - nem hoje em dia recebe - pelos problemas psicológicos que trouxeram da guerra.

Mas, este povo não era um povo qualquer, era um enorme exército de quase 3 milhões de homens. Homens que não estavam armados, mas sabiam mexer em armas de fogo... Eram soldados sem armas, mas soldados. Nas forças armadas estavam mais 200.000 praças (soldados do povo da categoria mais “baixa”). Acima dos praças 30.000 sargentos e apenas cerca de 15.000 oficiais chefiavam toda esta bomba relógio. A maioria dos oficiais tinha ligação e era subserviente às leis do Estado - nesta diminuta classe estavam os “capitães de abril” que supostamente foram os responsáveis da revolução(?), ou talvez por fazer com que esta revolução não tivesse sido uma carnificina...

A guerra civil estava no ar, e a classe Ditadora teve de escolher o “mal menor”... A classe oficial intermédia, quem sabe com ordens de poucos oficiais superiores, tentou controlar o povo e “liderar” a revolução que já estava na rua! A maior parte da alta classe ditadora, foi protegida em prisões de luxo e fugiu para o Brasil.

Hoje vivemos debaixo de uma classe ditadora que ressuscita, e aos poucos vai calando a voz do povo. Os órgãos de Justiça vivem suspendendo as penas aos “colarinhos brancos” que roubam à descarada, e a fiscalização acumula processos debaixo da mesa. A Polícia (nova PIDE?) parece mais leal aos governantes, do que às Leis que jurou defender!

Meus caros, o 25 de abril não aconteceu verdadeiramente! E não sou apenas eu que o digo, há quem já tenha proclamado à viva voz: “muito do prometido ficou por fazer”. Embora com alguma liberdade, a pergunta que cada vez mais me assola, é: será isto uma democracia? Seremos realmente livres? Não estaremos cada vez mais a viver debaixo de leis de um pequeno grupo de capitalistas, ditadores e oligárquicos, que desenham o mundo a seu belo prazer?!

Duarte De Sousa Melim