Operação Marquês: Sócrates atribui a arrogância ascendente sobre alegado testa-de-ferro
O antigo primeiro-ministro José Sócrates justificou hoje com o facto de poder "ser arrogante" o ascendente sobre Carlos Santos Silva em conversas telefónicas sobre um apartamento em Paris, que insistiu ser propriedade deste empresário e não sua.
"Eu posso ser arrogante, e ganhei uns tiques de arrogância, embora outros sejam mais arrogantes do que eu", afirmou o chefe de Governo entre 2005 e 2011 ao ser confrontado pela juíza-presidente, no julgamento do processo Operação Marquês, com o facto de em determinadas interceções telefónicas transparecer "quase um ascendente sobre Carlos Santos Silva" ao conversaram, em 2013, sobre a remodelação de um apartamento de luxo na capital francesa.
Em causa está uma habitação formalmente comprada em 2012 por Carlos Santos Silva, mas que, para o Ministério Público, foi na realidade adquirida por José Sócrates alegadamente com fundos provenientes de atos de corrupção.
Insistindo que o apartamento era do empresário e amigo, o ex-governante atribuiu ainda aquele aparente ascendente a uma certa "consciência de culpa" de Carlos Santos Silva por não estar a conseguir cumprir o prazo prometido para que o espaço fosse ocupado pela ex-mulher e um dos filhos de José Sócrates, à data a residirem num 'aparthotel' parisiense.
Além disso, acrescentou o antigo primeiro-ministro, viria a saber mais tarde que a família do empresário não queria que o apartamento fosse ocupado por terceiros.
"A família do Carlos queria ter um apartamento desocupado e o Carlos vivia nesse dilema", frisou, enquadrando nesse contexto interceções telefónicas entre ambos sobre o acordo a que tinham chegado ter sido uma má decisão e que, para o Ministério Público, demonstram que o empresário era, à data, testa-de-ferro do antigo chefe de Governo.
"Todas estas escutas são escutas próprias de alguém que estava numa situação de desespero, porque precisava de uma solução para a sua própria família", acrescentou.
José Sócrates, de 69 anos, e Carlos Santos Silva, de 67, são dois dos 21 arguidos no processo Operação Marquês, que têm, em geral, negado a prática dos 117 crimes económico-financeiros, alegadamente praticados entre 2005 e 2014, que lhes são imputados pelo Ministério Público.
O antigo primeiro-ministro responde, entre outros crimes, por três de corrupção, por ter, alegadamente, recebido dinheiro para beneficiar o grupo Lena, o Grupo Espírito Santo (GES) e o 'resort' algarvio de Vale do Lobo.
O ex-governante socialista retomou as declarações em 10 de setembro, depois de já ter falado nas primeiras sessões do julgamento, iniciado em 03 de julho de 2025, no Tribunal Central Criminal de Lisboa.
O depoimento de José Sócrates, que decorre intercaladamente com os de testemunhas que já tinham sido agendados, prossegue na quarta-feira, a partir das 14:00.