Autarca, deputado ao Parlamento Europeu e à Assembleia da República, Virgílio Pereira nunca abdicou de ar opinião, mesmo que não fosse a da maioria social-democrata. A consciência social é um dos destaques para Bruno Pereira, o seu filho que recorda o percurso, político e humano, daquele que era, para muitos, 'O professor Virgílio'
Virgílio Pereira sempre disse que não queria ser político, mas teve uma carreira que começou, logo após o 25 de Abril de 1974, na Comissão Administrativa da Câmara do Funchal, passou pelo Parlamento Europeu e pela Assembleia da República. Independente durante muito tempo, depois de aderir ao PSD chegou a vice-presidenre do partido, mas nunca abdicou de dar a sua opinião, mesmo que fosse contra a linha dominante.
‘O professor Virgílio’, era assim que o tratavam todos, não apenas os antigos alunos da ‘Gonçalves Zarco’, da ‘Industrial’ (hoje Francisco Franco’, do ‘Lisbonense’, do ‘Colégio de Santa Teresinha’ ou da Escola Tristão Vaz, em Machico. Para muitos foi sempre ‘o professor’, quando esteve, por duas vezes, à frente da Câmara Municipal do Funchal, no Parlamento Europeu ou na Assembleia da República. Um percurso preenchido de alguém que sempre disse que nunca tinha querido ser político.
Virgílio Higino Gonçalves Pereira, a personalidade que apresentamos nestes ‘Rostos da Autonomia’, uma iniciativa do DIARIO com o apoio da Assembleia Legislativa da Madeira, nasceu no Funchal a 11 de Janeiro de 1941 e morreu, a 24 de Julho de 2021, com 80 anos. Uma vida, como recorda um dos filhos, Bruno Pereira - também ele um político com uma carreira autárquica e ligada aos assuntos europeus -, dedicada à causa pública na busca por melhores condições de vida para as populações. E que, como sempre disse, não queria ser político.
A conversa com Bruno Pereira pode ser ouvida e vista na íntegra no podcast 'Rostos da Autonomia' em https://podcasts.dnoticias.pt/rostos-da-autonomia/.
Virgílio Pereira requentou a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa sem concluir a licenciatura em engenharia geográfia. Mas foi essa frequência universitária que lhe deu habilitações para leccionar Matemática, a sua disciplina de eleição.
"Foi para Lisboa estudar nos anos 60, não concluiu a licenciatura em Engenharia Geográfica mas, com a frequência que tinha e as cadeiras que fez dava-lhe habilitação própria para o ensino do então ciclo preparatório e a cadeira de eleição era a Matemática. Quando volta à Madeira começa por dar explicações de Matemática e daí foi um passo para integrar a Escola Gonçalves Zarco que na altura funcionava dentro da Escola Comercial e Industrial do Funchal, hoje Escola Francisco Franco. Também dava aulas em vários colégios privados, incluindo o Escola Tristão Vaz Teixeira, em Machico, que é onde conhece a minha mãe que também era professora lá na escola", recorda Bruno Pereira.
É nessa actividade que começa a ser conhecido por ‘Professor Virgílio’. “Não por título académico porque ele toda a vida teve de explicar que não era licenciado, mas tinha muito gosto no ensino".
É na Escola Industrial que é convidado a tomar conta dos serviços sociais, nomeadamente a cantina e é esse trabalho social em que "demonstra um humanismo e uma grande abertura aos problemas sociais que dão nas vistas a um conjunto de professores, como professor Jesus, que lá estava, o professor António Loja que, no pós-25 de Abril integraram, juntamente com o dr. Fernando Rebelo o MDM, o Movimento Democrático da Madeira".
É assim que o convidam para presidir à Comissão Administrativa da Câmara do Funchal. Como lembra o filho, “fugiu” de férias para Canárias para ver se o convite era esquecido. Não foi esquecido e Virgílio Pereira assume um cargo que seria para apenas um ano mas que se prolongou e, em 1976, foi eleito presidente da Câmara do Funchal, pelo PSD. Era independente e continuou nessa condição até terminar o mandato.
“Enquanto esteve na câmara foi sempre independente. Não só ele, mas todo o elenco. Era um requisito que era colocado".
Concorre pelo PSD “primeiro porque era um partido grande o que tornava as coisas mais fáceis e ideologicamente a social-democracia sempre foi a ideologia do pai. As sociais-democracias escandinavas dominavam o pensamento dessa geração. O meu pai só vem a ser militante do PSD anos mais tarde como deputado à Assembleia da República".
Seguiu-se o Parlamento Europeu, onde entrou logo em 1986, no grupo de primeiros eurodeputados portugueses e onde era o único madeirense. Também foi deputado à Assembleia da República.
Em 1993, depois dos temporais de Outubro que devastaram o Funchal e a poucos meses das eleições autárquicas aceita o convite do amigo Alberto João Jardim e encabeça a lista do PSD, já como militante e ganha, numa disputa muito apertada com a lista do PS, de André Escórcio.
“Depois dos mandatos de João Dantas há um certo desgaste e essencialmente um fenómeno, que ele não teve culpa nenhuma as que acabou por ter alguma preponderância em tudo isto que é o temporal de Outubro de 1993. As consequências políticas ca gestão desse evento foram difíceis e na altura e o dr. Alberto João, como presidente do PSD, vai convencer o meu pai, que estava em Bruxelas – foi o primeiro Municipal do Funchal. Essa é uma conversa que teve algumas exigências e uma delas era o suporte financeiro que o governo regional deveria dar à Câmara, de forma a que as obras que era necessárias fossem realmente concluídas. Tinha de haver um respaldo financeiro, porque a câmara estava fortemente endividada e ir para uma câmara em que nada pode fazer, não pretendia. Esse compromisso é de certa forma assumido", afirma Bruno Pereira.
Nas eleições de 1993 era necessário dar "um novo alento à população que tinha sofrido as consequências daquele temporal. Ganhou, não de uma forma não muito expressiva, contra o professor André Escórcio. Raramente falamos nisso mas na Assembleia Municipal não tinha maioria. Foi uma eleição muito difícil e ouço muitas vezes - e nem quer especular sobre isso – que se não fosse o Virgílio Pereira não tinham ganho. Não se sabe".
Poucos meses depois de assumir a presidência da CMF, Virgílio Pereira pede mais meios e, do areal do Porto Santo, ouve uma resposta de Jardim que diz que os bom gestor é o que sabe gerir sem dinheiro. Não gostou e demite-se em Setembro, apenas nove meses depois da tomada de posse. Sucede-lhe Miguel Albuquerque.
“Essas declarações [de Alberto João Jardim) foram feitas no Porto Santo, naquelas tertúlias na praia, no Bar do Henrique e caiu muito mal. Sobretudo devido à grande amizade pessoal que havia, eram compadres e o dr. Alberto João tinha estado lá em casa recentemente. Essa frase caiu muito mal porque ele achou que se havia alguma coisa a dizer dizia-se frente a frente e não num recado. O pai não gostou e sentiu-se defraudado. Ele aceitou ser candidato mediante determinadas condições e ao longo desses nove meses forma aparecendo diversas situações e tornava-se difícil cumprir determinados compromissos. Um dos compromissos mais marcantes era a ligação rodoviária de São João Latrão, em São Gonçalo, uma obra cara que a câmara não tinha possibilidades de fazer. Houve ali um cisma entre os dois compadres que, embora amigos, tiveram um período muito complicado na relação pessoal", recorda.
Saiu da câmara, enfrentou um problema de saúde e assumiu uma posição de ‘senador’, uma consciência política ouvida, respeitada, mas que não deixou de motivar um segundo “cisma” com Jardim, quando considerou uma “garotice” um requerimento apresentado para avaliar a saúde mental de um líder da oposição. Era vice-presidente do PSD e foi afastado, em congresso, dessas funções. Bruno Pereira recoda esse segundo episódio.
“No dealbar dos anos 2000 há um programa de comentário, na Antena1, muito interessante, o programa ‘Passo a Passo’, de Leonel de Freitas com o pai, o engenheiro David Caldeira e o dr, Ricardo Vieira. Foi o primeiro programa em que um militante do PSD era convidado para dar opinião e dizia o que queria. Até então, ninguém saía da nota dominante. Na altura aconteceu um episódio que não enobrece o parlamento. O líder da oposição era o professor João Carlos Gouveia, do PS e, por algumas declarações que fez, o PSD apresentou um requerimento sobre a sua sanidade mental. Nesse comentário político, o pai disse que esse requerimento era uma garotice. Foi essa a expressão que ficou para a história. isso dá um grande brado, sobretudo no DIÁRIO, com trocas de afirmações com o dr. Alberto João e acaba por haver um congresso do PSD praticamente para eleger uma nova comissão política da qual o pai já não faz parte".
Tudo isso acontece em 2007 e é o "segundo cisma2 com Alberto João Jardim.
“Nesse congresso o pai vai lá, explica o que tem de explicar e, à frente dos seus companheiros partidários, tem um discurso que foi aplaudido, mas contidamente por medo das repercussões que pudessem existir. essa situação ainda é mais grave do que a primeira porque é quase como alguém ser condenado por um delito de opinião", lamenta.
O tempo diz, Bruno Pereira, “consegue apagar tudo, mas o que fica é nunca ter, perante a nossa opinião e os factos que aparecem qualquer tipo de receio de dizer aquilo que nos vai na alma. Porque isso enobrece e torna a política uma coisa mais séria".
Virgílio Pereira continuou a ser uma referência na política regional. Publicou dois livros ‘Alguns Olhares’ (2007 ) e ‘Retalhos de Uma Vida’ (2019).