O casamento que só aconteceu nas redes
No passado sábado, centenas de pessoas foram para as ruas do Funchal à espera de assistir a um casamento que nunca existiu. Cristiano Ronaldo e Georgina Rodríguez casar-se-iam na Sé, dizia-se. Havia hora, local, convidados imaginados e até uma espécie de certeza colectiva de que o acontecimento estava prestes a começar. Só faltava um pequeno pormenor: ser verdade.
O episódio seria apenas caricato se não revelasse algo mais preocupante sobre a sociedade em que vivemos. Durante dias, as redes sociais alimentaram o boato, repetiram-no, acrescentaram-lhe pormenores e transformaram uma invenção numa aparente realidade. Bastou alguém escrever, outro partilhar e centenas repetirem para que a mentira adquirisse estatuto de notícia.
Entretanto, os órgãos de comunicação social, sujeitos a regras, confirmação de fontes e responsabilidade pelo que publicam, foram praticamente ignorados. Para muitos, aparentemente, vale mais uma publicação anónima no Facebook, um vídeo no TikTok ou uma mensagem que circula no WhatsApp do que o trabalho de jornalistas que procuram confirmar a informação antes de a divulgar.
O resultado ficou à vista. Centenas de pessoas deslocaram-se ao centro do Funchal, algumas esperando horas, numa demonstração quase perfeita do poder que a desinformação adquiriu. E fizeram-no sem que houvesse uma única confirmação credível de que Cristiano Ronaldo estivesse sequer prestes a casar na Madeira.
Não está em causa o interesse ou a curiosidade em torno de uma figura mundial como Ronaldo. Isso é perfeitamente compreensível. O problema é outro: a facilidade assustadora com que hoje se acredita em qualquer coisa desde que apareça num ecrã e seja suficientemente partilhada.
Depois queixamo-nos das “fake news”, da manipulação e da perda de referências. Mas talvez devêssemos começar por olhar para a nossa própria responsabilidade. Informação não é aquilo que alguém escreve nas redes sociais. Jornalismo implica confirmar, confrontar, perguntar e assumir responsabilidade pelo que se publica.
O casamento de Ronaldo não aconteceu. Mas ficou uma fotografia pouco abonatória destes tempos: centenas de pessoas à espera de um acontecimento inventado enquanto a informação credível era desprezada.
Talvez a verdadeira notícia daquele sábado não fosse o casamento que não houve. Foi perceber até onde uma mentira consegue levar uma multidão.
Luísa Maria