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O exército

Chegados aos 50 anos da concretização efetiva da Autonomia Política e criação das Regiões Autónomas, este é o momento ideal para refletir sobre o tempo passado e projetar, dentro do possível, as próximas 5 décadas de Autonomia.

É inegável que neste tempo a Autonomia política foi essencial para a Madeira progredir e desenvolver-se enquanto Região e sociedade. A transformação foi muito mais do que infra-estrutural: foi cultural, social, económica e humana. Afinal, em apenas 50 anos passamos da mais pobre e atrasada Região do país para a 2.ª mais rica com um PIB acima da média nacional. A Madeira passou de uma Região em que há 50 anos existiam meia dúzia de médicos para toda a Costa Norte, para uma Região em que hoje temos médicos oriundos da Costa Norte, formados na Madeira, fixados nos seus municípios e a servir as suas populações com urgências 24h por dia dando mais qualidade de vida, longevidade e saúde às populações.

Podemos falar de várias áreas, entre elas a educação, onde o absentismo escolar desceu substancialmente, fazendo da nossa população um Povo mais formado, melhor preparado e civicamente mais atento. Tudo isto se deveu a muitos fatores, mas o mais importante, provavelmente, foi a convicção com que os madeirenses que efectivaram a conquista da Autonomia a abraçaram, liderando um novo tempo de oportunidades e de um verdadeiro sonho madeirense maior do que as individualidades que a cada tempo o protagonizaram.

A maior conquista produzida pela Autonomia, a seguir à melhoria da condição de vida dos madeirenses, foi o exército que construiu. Gerações de madeirenses interpretam o azul e amarelo como símbolo de identidade de um Povo marítimo que do vale à montanha e do mar à serra enfrentou dificuldades e que no calhau roliço encontrou os alicerces de um horizonte de esperança, de uma casa que apesar dos defeitos muito melhorou em 5 décadas.

No próximo dia 19 de julho não celebraremos apenas as 5 décadas passadas sobre a primeira tomada de posse da assembleia legislativa regional e a formação do primeiro governo regional. Celebramos séculos de história onde o sonho de decidir o nosso futuro foi sucessivamente adiado até ao dia em que o País percebeu que uma democracia plena só existia com um estado que dava a dimensão e importância ao primeiro e último território marítimo que se preserva português. Sim, porque há vários governantes nacionais, de vários partidos e cores, que se esquecem que a mais dourada página da história portuguesa se começou a escrever na Madeira e nos Açores, hoje Regiões Autónomas.

Nem tudo foi perfeito, contudo nos próximos 50 anos o desafio será consciencializar todo um país que tal como no passado as Regiões Autónomas dão esperança e futuro: na tecnologia, na economia desmaterializada, nos empregos remotos, no know-how que só as especificidades regionais podem trazer ao país.

Nos primeiros 50 anos tivemos um exército de autonomista que deu cor à bandeira, casa à causa e transporte para as novas gerações um sentimento de pertença, identidade e amor que nos fazem reconhecer que o nosso arquipélago é “das ilhas, as mais belas e livres”. Para os segundos 50, é necessário um exercício que saiba combater as iniquidades do poder central, mas que saiba potenciar, de igual para igual, que a Madeira e o Portugal Atlântico são a mola catalisadora do que falta para cumprir Portugal. Porque ser ilhéu é debater-se, diariamente, com questões que a natureza das coisas altera, velozmente, como um avião que embarca rumo a oportunidades. No passado, ainda antes da autonomia, o avião partia em busca de outras paragens. Hoje são aviões que chegam.

Para novos, velhos, reformados, ricos ou pessoas que tal como nós no passado íamos à procura de mais oportunidades. Que passados 50 anos, possamos ser o sonho por mais 50… para os continentais que desesperam por uma agenda de liderança e mudança do país, para os madeirenses exigentes que querem desenvolvimentos tão rápidos como nos últimos 50 anos, para os imigrantes que nos escolhem diariamente como uma terra de oportunidades. Porque só um exército motivado pode levar uma bandeira mais longe, só com um exército se vive com o desprendimento de que é melhor “morrer de pé do que viver em paz sujeitos”. Porque sem exército as batalhas são mais difíceis e há tanto para aprofundar na autonomia, na nossa liberdade, no nosso futuro.

Que sejamos um exército.